CARRITO, EVILÁSIO E PEDRO AGRA Clerisvaldo B. Chagas, 5 de novembro de 2018bom Escritor Símbolo do Sertão Alagoan o Crônica: 1.999...

CARRITO, EVILÁSIO E PEDRO AGRA


CARRITO, EVILÁSIO E PEDRO AGRA
Clerisvaldo B. Chagas, 5 de novembro de 2018bom
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 1.999
 
IGREJINHA DAS TOCAIAS. (FOTO: LIVRO 230).
É bom e altamente produtivo pesquisar os mais velhos. Foi assim que ouvi Carlos Gabriel, o Seu Carrito, bodegueiro bem de vida da Rua Antônio Tavares, em Santana do Ipanema. Bigode, chapéu, magro elegante e de fala mansa, Seu Carrito gostava de contar fatos locais. Tinha vocação, sem saber, para historiador. Na Semana Santa o bodegueiro promovia festejos como pau-de-sebo e casa-de-urtiga. Chegava gente de bairros distantes para apreciá-los. Foi seu Carrito quem me ajudou sem perceber a contar a história em crônicas soltas e livros da igrejinha do Bairro São Pedro. Igreja esta Iniciada em 1915 e somente concluída em 1937, através do comerciante Tertuliano Nepomuceno.
Evilásio Brito, moreno, forte, dono de fabriqueta de calçados, comerciante, gostava muito de contar casos de valentia. Amigo de meu pai, narrava em voz baixa, olhando para os lados. Quase sempre o tema girava em torno de aventuras da região de Pão de Açúcar.  Foi através das suas narrativas que pude resgatar a história da Igrejinha das Tocaias, episódio santanense do tempo do cativeiro. A narrativa foi feita em cordel e, recentemente, saiu à segunda edição, por sinal, bem aproveitada pelas escolas da cidade. De memória privilegiada, gostava de transmitir as importantes observações de Pedro Agra.
 Pedro Agra, comerciante, alto, forte, também possuía memória invejável. Não tive oportunidade de aproximação. Mas o homem descrevia bem as primeiras famílias santanenses e todo caldeamento possível.  Havia outras pessoas que contavam bem a história da região, mas o comerciante Pedro Agra pelo seu conhecimento e lucidez parecia o mais importante de todos. Deu uma fortíssima contribuição aos irmãos Floro e  Darci Araújo, no livro: Santana Conta Sua História, informando famílias e gerações do nosso povo. Foi o responsável pela história da Igrejinha das Tocais, passada ao, então, Evilásio Brito e colhida por nós.
Estamos apenas tentando não deixar morrer na vida santanense, os nomes valorosos que ajudaram a cultura da terra.

ALUMIANDO A VIDA Clerisvaldo B. Chagas, 2 de novembro de 2018 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 1.998 CANDEEiRO. (FOT...

ALUMIANDO A VIDA


ALUMIANDO A VIDA
Clerisvaldo B. Chagas, 2 de novembro de 2018
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 1.998
CANDEEiRO. (FOTO: ANALISE AGORA).

Dona Zifina cortava flandres. Fazia candeeiro. Seu Tô, com chapéu raro de Polícia Montada, retelhava casas; Salvino consertava sombrinhas; Silvino manejava o serrote: roc-roc; Pé-Espaiado era ferreiro; Zé Gancho trabalhava o Zinco; Otávio Magro vendia carne-de-sol e Dona Maria Néris rezava o ofício de Nossa Senhora. Manezinho Quiliu, vindo de Olivença, mexia com bicas; Gérson batia sola; Maria Lula vasculhava casa; Zé Preto negociava bugigangas; Seu Né cubava terras; Flora vendia esteiras; Seu Antônio e Seu Quinca eram alfaiates e, finalmente, Zé Limeira fazia malas. Não éramos uma Grécia, mas bem que a Rua Antônio Tavares e arredores funcionavam como tal.
Josefina, dona Zifina, de voz metálica e artesã dos flandres, confeccionava candeeiro, canecos, aros de óculos: Rats, rats, rats, trabalhava a tesoura pesadona nos dedos ágeis da avó de Oscar Silva, futuro escritor. E numa terra que passou quatro anos no escuro, o candeeiro, a placa, a candeia, eram bênçãos divinas nas noites tremendamente escuras do Sertão. Santana do Ipanema precisava do Ferreiro, era ali pertinho. O sapateiro, o barbeiro, o menino de recado... Tudo estava ao alcance de um grito forte de sertanejo. E assim deslizava o tempo tão devagar quanto o carro de boi de Lero Carreiro. E quando o vento forte fazia redemoinho, a meninada encintava o vento: “Rapadura! Rapadura!”.
Durante as noites de lua, gente nas calçadas enroladas em lençóis, contando histórias de Trancoso, de almas penadas, fazendo adivinhações, identificando as estrelas. O ferro em brasa nas janelas, levando as cinzas do carvão. Candeeiro aceso na força do querosene, do gasóleo. Aqui, acolá, a passagem tardia de um malandro de jogo; um sopro forte no ferro de engomar; Uma golada d’água da quartinha com tampa de pano bordado, na janela tomando fresca.
Benditas mãos que confeccionavam as candeias de latas e nos tiravam do escuro.

MANGAS E CAJUS Clerisvaldo B. Chagas, 1 0 de novembro de 2018 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano C rônica: 1.997 IMAGEM: DIVULG...

MANGAS E CAJUS


MANGAS E CAJUS
Clerisvaldo B. Chagas, 10 de novembro de 2018
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 1.997
IMAGEM: DIVULGAÇÃO.

Chegou o mês de novembro. O mês dos ventos fortes no Sertão. As mangueiras botam cachos, botam flores, enfeitam-se como belas noivas aguardando o Natal. De Maceió ao interior longínquo faz gosto observar o balanço dos manguezais floridos. Chamam atenção em Maceió, Palmeira dos Índios, Maribondo, Belém, no Cabeça d’Anta... No São Francisco surge à bela e saborosa Manga Maria, cujo volume é um almoço completo. Aí vem o desfile da fruta com suas variedades: Rosa, Maria, Espada, Gobom e outras produzidas para a indústria. O tempo já se sabe decorado. Novembro a fevereiro a manga domina a paisagem agrícola e complementa bem a alimentação do povo.
Mas não é somente a manga quem manda e faz a festa. O caju é o seu companheiro nos meses citados. Os cajueiros também vão se mostrando belos entre as cores amarela e vermelha. E se esses frutos são doces, o atestado pertence ao povoado Areias Brancas do município de Santana do Ipanema ou de grande área plantada do Olho d’Água do Casado. O caju amarelo é doce. O vermelho é travoso. Mas o provador de aguardente disso não quer saber. É encher a boca d’água vendo os frutos no pé e o carro com velocidade. E haja, nessa época, glosadores de copo no balcão, dedos no caju e tempero na goela. Mas nem só do caju morde que bebe.
Quando o ano é bom de safra, a vitamina C preenche os lares sertanejos. Até mesmo a idade das pessoas é medida em cajus. Quem possui os seus pomares fracos ou fortes faz a festa debaixo das galhadas. As folhas dos cajueiros são por natureza bordadas e multicores dando pompa à árvore que acena ao longe. Chupa-se o caju, vende-se a castanha unindo-se o útil ao agradável.
O final do ano vai chegando assim acompanhado pelo aroma das frutas tropicais. Quem não tem fazenda, contempla os frutos da beira da estrada. Não importa se o cajueiro é de Pirangi, o maior do mundo, nem se ele é do vermelho ou do amarelo, vai ao suco, vai à polpa... Vai ao copo.
Bote uma aí, bodegueiro!.