ALVÍSSARAS, ALAGOAS Clerisvaldo B. Chagas, 26 de novembro de 2018 Escritor símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.014 Novamente...

ALVÍSSARAS, ALAGOAS


ALVÍSSARAS, ALAGOAS
Clerisvaldo B. Chagas, 26 de novembro de 2018
Escritor símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.014

Novamente a notícia faz vibrar positivamente o nosso estado. As alvíssaras foram divulgadas pelo jornalista Edvaldo Júnior, no último dia 20. Alagoas poderá ganhar 3.000 empregos indiretos com implantação da indústria de mandioca paranaense, Amafil, em território de Teotônio Vilela, região do Agreste. Seria a oitava fábrica do grupo e localizada no recente Polo Industrial Governador Eduardo Campos, em Teotônio. A região de Arapiraca que quase deixa de plantar fumo dedicou-se ao cultivo da mandioca que predomina atualmente no Agreste e já invade a zona canavieira, como primeira opção, à cana-de-açúcar, em crise. Somente nessa grande região Agrestina, estão plantados mais de 30 mil hectares do produto.
Novas oportunidades surgirão com esse investimento de 20 milhões, incentivos fiscais do Prodesin e apoio da Sedatur. A área é calculada em 200 hectares, cuja Amafil ocupará 16 do total. A fábrica poderá processar 300 toneladas/dia e precisará de uma área plantada de cerca de 10.000 hectares. No Agreste a tonelada já chegou a 500 e 700,00, mas está no preço de 230,00. Com a nova fábrica a expectativa é que a tonelada do produto selecionado chegue aos 400,00. Toda a produção será aproveitada no próprio solo alagoano, uma vez que, atualmente, estar indo para Sergipe e Pernambuco a preço baixo. Nesse momento de crise geral, ganhar 3.000 mil empregos no Agreste, reforça a economia e a esperança de melhores dias na região e no estado como um todo.
 O município de Teotônio Vilela, não fica longe de Arapiraca. Acha-se a 156 metros de altitude e a 101 km de distância da capital. Possui, aproximadamente, 45.000 habitantes e possui usina canavieira. Sua padroeira é Nossa Senhora de Guadalupe e o seu gentílico é vilelense.
Não é somente o município de Teotônio Vilela que será amplamente beneficiado, mas também todo o Agreste alagoano, que gira em torno da maior cidade do interior, Arapiraca. Assim Alagoas vai diversificando sua economia.  Os antigos canaviais vão perdendo terreno para a cultura do eucalipto, da mandioca, soja e frutas tropicais.
Notícia melhor, somente outras parecida.
Fui.

  





COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (V) Clerisvaldo B. Chagas, 23 de novembro de 2018 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.013  ...

COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (V)


COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (V)
Clerisvaldo B. Chagas, 23 de novembro de 2018
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.013
 
CERAMISTAS DE CARUARU
A bodega do meu tio não tinha tudo. Minha atenção maior era na saída dos goles de cachaça, na venda do gasóleo e do querosene. Nos dias de feira na vila (as segundas) o movimento no Pedrão era intenso na ida e na vinda. Cavaleiros, carros de boi, jumentos, burros e pessoas a pé. À tarde voltavam da feira, lotados, vencendo uma légua. Bois puxando os carros, esticando cambão, mesas abarrotadas das mais diversas mercadorias. Os cavaleiros pegavam corridas na rua plana do povoado e paravam defronte à bodega. Bebiam cachaça, diziam prosas e cuspiam no chão.
Em Dia de Finados surgia o padre Luís Cirilo e o sacristão Jaime, para missa no cemitério local, que ficava depois da igreja, no caminho do Capim. Lembro ainda uma estrofe cantada pelo povo e repetida pelo sacristão, da Ladainha dos Mortos:

“Abris os céus
Das almas tendes compaixão...”

Assim eu ia observando tudo, vendo como fazer, sem pensar jamais no futuro das letras. Aprendi a fazer flauta de talo de abobreira; a descascar laranja com a unha (imitando Zé Vieira); a comer melão-de-são-caetano, presos nas cercas de arame; a sugar o néctar da pequena flor do espinheiro roseta; a conhecer e distinguir o carrapicho, o velame, a urtiga, o rasga-beiço... E muitos rastros da fauna sertaneja. Só não aprendi a cavalgar e dançar forró porque não me ensinaram.
Foi com essa bagagem de infância que li o romance CURRAL NOVO do escritor palmeirense, Adalberon Cavalcante Lins, (para mim o maior romance do mundo) que enveredei pelos romances regionalistas nordestinos.
Sei não, mas penso que é assim que se FAZ UM ROMANCISTA.

(FIM DA SÉRIE DE CINCO CRÔNICAS)


                                                  


COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (IV) Clerisvaldo B. Chagas , 22 de novembro de 2018 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.012 ...

COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (IV)


COMO SE FAZ UM ROMANCISTA (IV)
Clerisvaldo B. Chagas, 22 de novembro de 2018
Escritor Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.012
ILUSTRAÇÃO: ELIAS VITALINO

Contemplei em uma imensa plantação de algodão, a colheita do produto, comandada pelo meu tio. Cerca de 100 pessoas, entre homens e mulheres a quem eles chamavam de batalhão. Todos protegidos por chapéu de palha de aba grande ou pano à cabeça, bizaco a tiracolo. Uma senhora puxava cantiga em quadras improvisadas. Cada estrofe era ouvida por todos os que vinham atrás colhendo o algodão, embizacando e respondendo:

Mineiro pau...
Mineiro pau...

Hora do almoço, feijoada com charque para o batalhão, debaixo dos laranjais.
O algodão era pesado e ensacado nos armazéns. Os sacos/estopas eram pendurados ao teto com uma roda de pneu fino na boca. Um homem dentro do saco pilava o algodão com os pés. Outro cozia a boca da estopa com agulha de saco e novamente o colocava na balança de armazém. Dali o produto seguia em carros de boi para a vila de Olho d’Água das Flores onde era vendido às algodoeiras.

Também contemplei em outro roçado, a colheita da mandioca, raiz que gosta de terras especiais. Em lombo de jegue e em carros de boi, o produto chegava a casa-de-farinha.  Formava-se a deliciosa festa da farinhada. Mulheres sentadas no piso de barro tagarelavam e rapavam mandioca em redor do monte, sempre abastecido. Aqui, acolá aparecia uma macaxeira (macaxeira não é mandioca) que logo era comida crua pelas participantes.
No caititu, a cevadeira triturava o produto colocado no cocho. Dois homens fortes rodavam a roda de veio ligada por barbante, ao caititu. A massa triturada ia para a prensa manobrada por um sujeito forte. Depois era peneirada, colocada ao forno de barro, onde um habilidoso cidadão mexia a massa, com um rodo de madeira produzindo a farinha. O forno era alimentado por lenha bruta. O cheiro gostoso invadia toda a casa-de-farinha. Eu ficava no pé do forno catando “grolado” para comer. Lá fora, no oitão, um cabra gritava em referência ao caldo da prensa jogado fora: “Deixe a vaca longe, Ciço, manipueira mata!”.
(CONTINUA).