PALMEIRA EM FOCO Clerisvaldo B. Chagas, 8 de fevereiro de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.466        Pelas not...

 

PALMEIRA EM FOCO

Clerisvaldo B. Chagas, 8 de fevereiro de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.466

 



     Pelas notícias surgidas o governo de Alagoas está mesmo endinheirado. As promessas da semana passada deixam Palmeira dos Índios – cidade no limiar do Agreste fronteira com o Sertão – eufórica. Isso porque o município poderá dar um salto de qualidade, uma vez que o governador vai atuar com força naquela região. Um dos anúncios governamentais é a duplicação da AL-115, rodovia que liga Palmeira dos Índios a Arapiraca, um atalho via Igaci. A rodovia é um verdadeiro pulo entre as duas cidades agrestinas, daí o intenso tráfego de carretas, caminhões e outros veículos pesados, dia e noite pelo trecho perigoso de tantas curvas apresentadas. É também um atalho significativo entre o Recife e a região Sudeste, o que justifica o trânsito perigoso e constante por aquele trecho da AL-115.

Além disso um novo hospital será construído em Palmeira dos Índios e projeto para asfaltamento de 70 ruas. Outros benefícios ainda foram anunciados na Princesa do Agreste e que visa assegurar uma dinâmica de desenvolvimento regional que merece a atenção do   povo sertanejo. Palmeira dos Índios também fica situada em lugar privilegiado, pertinho da capital do interior, Arapiraca, fronteira com o Sertão, vizinho a Pernambuco e rota para Bom Conselho, Garanhuns, Caruaru e Recife. É só vencer a famigerada serra das Pias e logo adentrará a Pernambuco. Palmeira dos Índios recebeu a primeira estrada asfaltada de Alagoas no governo Arnon de Melo, essa merece de verdade uma duplicação até Maceió, porém o governo estadual optou pelo alargamento da AL-115 e que nada temos contra.

Palmeira dos Índios vem de um aldeamento dos índios xucurus do século XVII. Esse aldeamento que ficava no lugar Cafurna corresponde ao sítio da atual cidade. A herança das belas palmeiras que ornavam o território indígena continuou no título da terra das pinhas. Várias cidades fazem parte do cordão de satélites de Palmeira dos Índios, tanto do Agreste quanto do Sertão: Estrela de Alagoas, Minador do Negrão, Cacimbinhas, Igaci e Belém. Em outros tempos já possuiu estrada de ferro ligada à capital Maceió e à cidade ribeirinha do São Francisco, Porto Real de Colégio.

Palmeira dos Índios é a terra adotada por Graciliano Ramos. Também fazem parte da sua história o poeta Chico Nunes, os escritores Luiz B. Torres e Adalberon Cavalcante Lins.

AÇUDE DO GOTI (FOTO: B. CHAGAS).

 

  SÓ TEM BODE Clerisvaldo B. Chagas, 5 de fevereiro de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.465 Ainda nos anos 60 a c...

 

SÓ TEM BODE

Clerisvaldo B. Chagas, 5 de fevereiro de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.465




Ainda nos anos 60 a carne de bode era bastante desvalorizada. No geral, só quem apelava para essa proteína eram as pessoas de menor poder aquisitivo. Todavia aí não estava incluída a chamada buchada, prato cobiçado por todas as classes sociais. Até havia escolha quando a preferência pelo bode superava a buchada de carneiro, diziam os entendidos. Cantava o forrozeiro:

“Eu faço uma buchada

De bucho de bode

Que o cabra come tanto

Que mela o bigode...”

 

Também eram consideradas coisas para trabalhadores braçais, o charque e o bacalhau que hoje concorrem com o preço do ouro. O bacalhau era alimento dos escravos. O charque era servido aos “batalhões” nos roçados. Mas voltemos ao nosso bode pai de chiqueiro do dia a dia.

Três ou quatro hotéis havia em Santana muito procurados pelos viajantes, assim chamados os caixeiros-viajantes que chegavam de Maceió e Recife para vender seus produtos na Praça. Para economizar, sempre surgiam os que procuravam hospedarias mais humildes como a de dona Rosa no perímetro das feiras semanais. Vez em quando ficávamos sabendo o que se servia nessas pensões pelo humor de algum viajante presepeiro:

 

“Seu Mané como é que pode

Seu Mané como é que pode

Na pensão de Dona Rosa

Só tem bode...

Só tem bode”.

 

Atualmente desapareceu o caprino no médio sertão. “Dar trabalho se criar o bicho pulador de cerca e de pouco rendimento na panela”, falam os criadores de ovinos.  Mas o Candinho da novela das seis, ao procurar um bode para a sua cabra Ariana, parece despertar o apetite pelo bode assado e a buchada sertaneja. Enquanto o dono das cabras está sendo promovido em cidades como Petrolina, Picuí e Recife, de gado miúdo só temos o carneiro para agradar ao turista.

Por favor, não botem a culpa, porém, em DONA ROSA...

Venda de bode (Foto: g1.globo.com)

 

 

  A BOLA DO FINADO Clerisvaldo B. Chagas, 4 de fevereiro de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica/conto 2.464 O Estádio A...

 

A BOLA DO FINADO

Clerisvaldo B. Chagas, 4 de fevereiro de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica/conto 2.464





O Estádio Arnon de Mello, em Santana do Ipanema, Alagoas, está situado ao lado do Cemitério Santa Sofia, parte alta do Bairro Camoxinga. Recebeu o nome do, então, governador em troca de vários milheiros de tijolos para cercar a praça esportiva. Acordo firmado, hoje em dia a murada anda precisando de reforma para mais segurança dos transeuntes da área.

Certa feita, houve um jogo muito importante. A torcida lotava o estádio, inclusive, havia muitos desportistas até em cima do alto muro que separa o cemitério do estádio. O Ipanema, costumeiramente, sempre foi um time orientado para bola rasteira e rápida, porém, desta feita um zagueiro mandou a bola violentamente para o espaço fazendo com que ela caísse no Cemitério Santa Sofia.

A torcida ficou irritada porque isso atrasaria o jogo, pois, na época, jogando com uma bola só, era preciso enviar um funcionário do campo para rodear pela rua, entrar no cemitério, procurar entre os túmulos e trazer de volta a pelota. Mas eis que um milagre aconteceu. Abola retornou do mesmo jeito que havia deixado o campo. Com o acontecimento inédito, houve uma debandada dos torcedores que estavam encostados ao muro. O bandeirinha saiu em disparada se benzendo e erguendo as mãos aos céus.

O segundo acontecimento foi ainda mais espetacular. O Ipanema jogava um amistoso com um time do Agreste quando um zagueiro, sufocado com o ataque adversário, deu um chutão que a bola subiu e parecia não querer voltar ao solo, foi para nos fundos do cemitério. Após cinco minutos de jogo paralisado, chega o vigia do cemitério e devolve a bola dizendo: “O finado Zé Bodó mandou dizer que se a pelota bater novamente em sua cruz rasgará a bola”. E como Zé Bodó havia morrido há pouco meses, o treinador que recebeu a bola de volta teve uma tremedeira na hora e uma diarreia momentânea, despachada nos recantos do estádio.

Seria o Benedito!

CEMITÉRIO SANTA SOFIA CONSTRUÍDO ENTRE 1942 E 1945. (FOTO: B. CHAGAS/LIVRO 230).