SANGUE AZUL Clerisvaldo B. Chagas, 21 de janeiro de 2021 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.646   Todos os domingos es...

 

SANGUE AZUL

Clerisvaldo B. Chagas, 21 de janeiro de 2021

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.646


 

Todos os domingos estávamos a chupar as mangas ”Gobom”, carnudas, caroços quase inexistentes, no sítio do senhor Olavo, na serra do Gugi ou almoçando no sítio Cedro do Gugi, no pé desta serra, na casa do eterno candidato a vereador Jonas. Isso tudo após um belo banho num poço aprazível do riacho Gravatá, afluente do rio Ipanema. Duas léguas do centro de Santana até ali, o equivalente a 12 quilômetros, vencidos rapidamente a pé. Aproveitávamos o prestígio da família Carvalho na serra do Gugi com José Carvalho e Mileno Carvalho e sítio Cedro do Gugi com a amizade entre o senhor Jonas e nosso amigo Francisco de Assis que sempre ia conosco. Após comermos a galinha de Jonas e dona Creusa, sua paciente esposa, subíamos à serra para o sítio da família Carvalho, casa de dona Neném e para o engenho de pau de Olavo para tomar caldo-de-cana a que eles chamavam de “garapa”.

Certo dia fomos convidados para um almoço às margens do Gravatá onde estava havendo uma festinha caseira, talvez de um batizado. Na hora da mesa muitas mãos nuas das cozinheiras retiravam macarrão para os pratos e aquilo me deu náuseas. Aleguei que não queria almoçar, estava de barriga cheia, mas fui contestado por uma solteirona da cidade, no meio de todos. “Esse povo é fidalgo, não come na casa de pobre, não”. Disfarcei a conversa daquela “doida”, mas fiquei morto de vergonha. Tive que esperar pelos amigos até que eles resolveram retornar a Santana. Aí sim, eu conheci na realidade o que povo falava: “duas léguas de fome”, até chegar em casa.

Não faz muito tempo assim, fomos convidados, eu e minha esposa, por uma exímia cozinheira, para uma buchada em sua residência. Fomos com a maior satisfação parar no Bairro Lajeiro Grande. Durante o almoço a cozinheira dizia: “Ah, minha gente, pessoas da vizinhança se ofereceram para almoçar buchada com vocês. Cortei tudo na hora dizendo que a buchada era para fidalgos, pessoas do sangue azul. Foram gargalhadas para todos os quadrantes da casa com àquela brincadeira.  Logo veio à lembrança do almoço do Gravatá. E dessa vez, a amizade verdadeira e sincera me deixou mesmo quase acreditando – de mentira – que nós éramos fidalgos e de sangue azul.

Sangue azul comendo buchada... Pode! Mas não era o sangue azul do Gravatá.

RIACHO SANTANENSE (FOTO: BIANCA CHAGAS).

 

  O CASAMENTO NA ROÇA Clerisvaldo B. Chagas, 20/21 de janeiro de 2022 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.645   Zé Mula...

 

O CASAMENTO NA ROÇA

Clerisvaldo B. Chagas, 20/21 de janeiro de 2022

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.645




 

Zé Mulato não queria passar vergonha. Deveria seguir a tradição da zona rural. Não era rico, mas conhecido como barriga-cheia (pessoa equilibrada financeiramente).  E como não era todo dia que casava uma filha, sim, faria uma festa para ninguém botar defeito. Mandou abater o maior e mais gordo porco da fazenda; Galinhas, capãos, patos e guinés; um carneiro de 15 quilos e fez avaliação se precisaria matar um boi para assegurar a demanda. Um carro de boi chegou da “rua” repleto de bebidas e descarregado na ampla dispensa por trás da casa. Dona Creusa Mulato, sua esposa, trouxe as mais famosas cozinheiras dos arredores para o preparo dos quitutes.  Outras pessoas vieram para ajudar a abater os animais.  Da cidade, foram convidados o padre e suas comadres da Igreja.

A sobrinha de Dona Creuza, Tereza, que havia chegado recentemente de São Paulo, tomou à frente da parte do cartório, da Igreja, do vestido da noiva e de coisas semelhantes. Foi contratado um sanfoneiro que ainda se dizia parente de Luiz Gonzaga.  Enfim, dentro de um mês de corre-corre, estava tudo preparado para o grande dia. Inúmeros cavaleiros acompanhariam os noivos a cavalo e após o retorno da Igreja, teria início a festança em que Mulato calculara em três dias. Um cabra mal-encarado, sobrinho do pai da noiva, estava encarregado da segurança; esse nem bebia nem fumava, era só de olho duro em possíveis malfeitos.

A festança durou os três dias previstos por Zé Mulato. Forró dia e noite. Pela tradição, a noiva só poderia dormir com o noivo após a festa. O que coincidiria com os três dias previstos. Mas, devido o alto efeito da cachaça, não havia vigilância sobre eles. E acontece que após o cair da tarde, quando começavam a chegar as primeiras sombras da noite, ninguém via mais a noiva... Nem o noivo. Será que estavam rezando! Bucho tinindo de tanta comida e cabeça nos pares do forró, quem iria querer saber da noiva que não fosse a sua. E como tudo seus mistérios, até Zé Mulato e Creusa caíram no sapateado da sanfona. Os noivos estavam cansados de tanta espera.

A prima Tereza lembrou-se que ali pertinho havia um belíssimo arvoredo. Mas...Pensando bem...

Arvoredo não fala.

 

 

  MARACANÃ Clerisvaldo B. Chagas, 18 de janeiro de 2022 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.643   O Largo do Maracanã, ...

 

MARACANÃ

Clerisvaldo B. Chagas, 18 de janeiro de 2022

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 2.643




 

O Largo do Maracanã, apesar de ter perdido o símbolo que originou o seu nome – Churrascaria Maracanã – continua aceso e forte com suas sete bocas. É o centro do grande Bairro Camoxinga e o lugar mais pronunciado da cidade. É centro conversor e dispersor de sete ruas, aqui chamadas de bocas. Rua Maria Gaia, Pedro Gaia, Santa Sofia, Pedro Brandão, Pancrácio Rocha 1, Pancrácio Rocha 2 (BR-316) e a pequena via murada que acompanha a BR. Possui apenas um semáforo e mais nada e que às vezes quebra e da dor de cabeça até em cabeça de prego. Ali é caso de qualquer coisa da engenharia moderna que pudesse resolver definitivamente o problema. Uma obra federal. Entre 18 e 19 horas aquilo vira uma loucura de veículos e gente a pé para caminhadas, compras nas padarias, farmácias e posto de gasolina.

Clima Bom, Barragem, Lajeiro Grande, Baraúna, São José e Camoxinga, são bairros que convergem e divergem do Largo do Maracanã. A antiga Churrascaria transformou-se em clínica médica, mas o lugar não deixa de ser Maracanã, pequena ave parente do papagaio. Ali na esquina da Rua Santa Sofia, na BR-316, bem defronte a uma farmácia, naturalmente as pessoas aguardam transporte para o Oeste do Sertão: Poço das Trincheiras, Maravilha, Ouro Branco e até mesmo para o Canapi e o extremo do estado. Todas às tardinhas têm caminhadas dali ao DENIT ou até a Barragem, caminhadas estas, arriscadíssimas porque acontecem no leito da pista em disputa com os variados tipos de veículos. O lusco-fusco aumenta o perigo, porém os caminhantes não se dão conta de uma tragédia anunciada.

O Largo do Maracanã é sempre um protagonista de Santana do Ipanema. Vez em quando, uma pequena feira improvisada no terreno onde era o antigo posto de gasolina, faz a alegria das donas de casa com a venda de macaxeira, milho, tapioca, banana e outros produtos frescos vindos da roça. O Largo é ponto predileto para comício de políticos em épocas de eleição. Dizia um antigo delegado de polícia: “De dez ocorrência em Santana, nove são relativas ao Maracanã”. O local está para sempre marcado na terrinha, mas é bom que se diga, com seu grande movimento e pequeno comércio popular o Largo nunca foi elite no Bairro Camoxinga, possui os seus próprios personagens e faz circular dinheiro todos os santos Dias.

Maracanã, um logotipo imorredouro.

LARGO DO MARACANÃ EM DIA FERIADO: (FOTO: B. CHAGAS).