OS BICHOS BRUTOS Clerisvaldo B. Chagas, 12 de fevereiro de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3361   ...

 

 

 

 

OS BICHOS BRUTOS

Clerisvaldo B. Chagas, 12 de fevereiro de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3361

 

Quadro da Internet exibindo história


 com animais, principalmente asnos, me faz lembrar de algumas passagens da década de 1960 ou em torno disso. No Sertão se costumava chamar de “marroque”, o pão que fica duro de um dia para outro ou mais dias. Mas o que se fazer com um pão duro, fora da validade. Não sei dizer como as pessoas em geral procediam, mas Seu Izaías Vieira Rego, que era dono de padaria, sabia bem como lidar com esse destino. O panificador, que também era fazendeiro, delegado civil e usava no seu estabelecimento, duas atividades, armarinho e padaria, surgiu com dois jumentos enormes. Jumentos altos, bem-feitos que imediatamente chamava atenção de quem passava pelo Largo da Feira ou na sua calçada onde estavam amarrados os jegues da raça “pega’.

Em um tempo em que os animais de cargas ainda predominavam nos Sertões, a dupla “Pega” deveria valer uma pequena fortuna. E via-se claramente que os jumentos vieram de longe e eram selecionados.  Pois, seu Izaías Rego, dava destino às sobras dos pães da sua padaria, os chamados marroques, para as refeições dos dois jumentos que eram servidos em balaios de cipós. Muito interessante os ruídos das mastigações nos pães duros e que só mordidas de jumentos mesmo, poderiam desencantar os “marroques” de, sabe-se lá de quantos dias!  E nós, adolescentes, que não éramos jumentos pega, preferíamos o pão doce da tardinha, saído na hora.

A maioria dos jumentos do Sertão era da raça pega, mas não selecionados como os dois adquiridos pelo Senhor Izaias. Havia também o jumento da raça “Canindé” (menor, peludo, muito escuro ou marrom. Uma força extravagante!  A proporção entre as duas raças, ficava em torno de 10 X 1. A casa dos meus pais, mesmo, era abastecida com água do Panema, em uma das fases, por um jumento Canindé do senhor vulgo, Quixaba. Mais de cem desses animais abasteciam Santana com água do rio.  Quanto ao tratamento desses animais, dependia apenas do coração de cada proprietário. Ainda   não havia Lei do maltrato aos bichos. O monumento ao jegue foi merecido e ainda hoje é um dos pontos mais visitados e fotografados pelos turistas.

JUMENTO PEGA (DIVULGAÇÃO).

  A MORTE DOS GIGANTES SEM DIREITO A FLORES Clerisvaldo B. Chagas, 10 de fevereiro, de 2026 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crôn...

 

A MORTE DOS GIGANTES

SEM DIREITO A FLORES

Clerisvaldo B. Chagas, 10 de fevereiro, de 2026

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3360

 



Quem viveu quase toda a segunda metade do século XX, deve ter gozado da formação e realizações dos três clubes gigantes de Santana do Ipanema, os centros das diversões e congregadores da Cultura regional sertaneja. Tempo do rádio, não televisão, não celular, não computador. Sim, o reisado, sim, o pastoril, sim, os grandes bailes, sim, as novenas, sim, os banhos no rio Ipanema, sim o grande São João, sim, os grandes Carnavais. E neste século XXI, nada contra a evolução geral da humanidade. Nada de saudosismo sem fundamento, mas um olhar prático e sensível nos anais da história e as estações obrigatórias dos defeitos. Os três gigantes, Tênis Club Santanense, Sede dos Artistas e Associação Atlética Banco do Brasil – AABB, representam também outros gigantes: DNER, DNOCS, Instituto Colégio Sagrada Família, Posto de Puericultura, Ipanema Atlético Club e Ipiranga do futebol.

O orgulho dos trabalhadores (Sede dos Artistas), os orgulhos da Elite (Tênis Club e AABB) foram se degastando ao mesmo tempo em que as novidades de divertimentos em casa, foram surgindo. Seus fundadores e abnegados defensores, foram morrendo e mais nova geração não conseguiu mais editar os antigos feitos dos gigantes A geração novíssima, já de nada sabia sobre a vida dos três clubes. Os sócios se afastaram e não havia mais motivação para continuar com despesas de clube e da diversão em casa. Primeiro faleceu a Sede dos Artistas. Os dois clubes restantes resistiram até este primeiro quarto do século XXI; então caiu a AABB, logo depois era anunciado o óbito do Tênis Club Santanense, sem alarde, sem grito, sem zoada, sem choro, sem vela, SEM FLORES.

As memórias são apenas para os antigos. Mas, o que fazer agora com os dois velhos caarões que ainda estão de pé?   Serão demolidos? Serão transformados em museus, secretarias, escolas, hospitais... Como às vezes a história é cruel com os sobreviventes. Convido a Estação Rodoviária para fazer parte desse sepultamento coletivo. E, como foi dito acima: sem choro, sem vela e SEM DIREITO A FLORES.

TÊNIS CLUB EM 2013. (FOTO: Livro 230/B. Chagas).

 

 

 

                                   SAL E MEL – MEDIDAS Clerisvaldo B. Chagas, 10 de fevereiro de 2026. Escritor Símbolo do Sertão Alag...

 

 

                               SAL E MEL – MEDIDAS

Clerisvaldo B. Chagas, 10 de fevereiro de 2026.

Escritor Símbolo do Sertão Alagoano

Crônica: 3359

 



Tem razão o escritor santanense, Luís Antônio, o Capiá, quando diz que o seu avô vendia sal. Era isso mesmo, Seu Misael, que morava à Rua Nilo Peçanha – quase defronte a Cadeia Velha – vendia sal na feira de Santana do Ipanema com mais dois ou três colegas do ramo e um deles parece-me que era o senhor Domingos que morava do outro do rio. Mas, não sei o motivo, eu apreciava o sal grosso vendido a granel em sacos de panos, primeiramente defronte o “prédio do meio da rua”, depois, entre a igreja Matriz e a esquina do Hotel Central. Eu apreciava aqueles quadrados de sal grosso que me parecia diamantes, brilhantes e transparentes. A unidade de medida era um quadrado de madeira boa a que era chamado “salamim”. “Quero um salamim de sal” dizia o povo. Já a medida de vender farinha era qualquer vasilhame e a quantidade se chamava “Cuia”. “Dê-me uma cuia de farinha”.

Dizem que a cidade São Sebastião, perto de Arapiraca, no Agreste, era antes, o lugar, chamado “Salomé”, porque ali se vendia sal e mel aos viajantes. Não sei como era vendido o mel no lugar Salomé, porém, desde que conheci sua venda até os presentes dias, sempre foi com unidade de medida, “litro”. “Um litro de mel”, “dois litros de mel... “ Sempre soube também que o mel mais valorizado e profundamente mais gostoso e medicinal era o mel de uruçu, isto é, da abelha Uruçu. O mel de uruçu que chegava a Santana, era quase sempre de encomenda e vinha das imediações do lugar Cabeça Danta, entre Palmeira dos Índios e Maribondo. Já presenciei o mel de abelhas comum ao preço de 10,00, enquanto o litro do mel de uruçu valer 80,00 e continua assim.

Vimos quais eram as medidas para o mel, o sal, a farinha. Usava-se também a medida “litro”, para se vender castanhas, nas feiras, amendoim, fava e feijão. E por falar nisso, recentemente alguns clientes de uma banca na feira admiravam um caneco de Flandre que equivalia a um litro, medida para feijão verde e, sempre pediam explicações a dona da banca, fiel seguidora do padre Cícero e ela dizia: “Isso aqui veio do Juazeiro, é o meu orgulho e minha valorização”.

Assim eram as medições.

Medições do século XX.

MEDIDOR DE SAL REDONDO.