BARLAVENTO OU SOTA-VENTO (Clerisvaldo B. Chagas, 28 de janeiro de 2011). À memória do jornalista Mendonça Neto.        Geograficamente , b...

BARLAVENTO OU SOTA-VENTO

BARLAVENTO OU SOTA-VENTO
(Clerisvaldo B. Chagas, 28 de janeiro de 2011).
À memória do jornalista Mendonça Neto.

       Geograficamente, barlavento é o lado de uma montanha que recebe o vento. Diz-se que parte da montanha, da serra, da cordilheira, está a barlavento. Quando o vento sopra, então, para aquele lado, forçosamente eleva-se com sua umidade provocando chuvas ou orvalhos. Isso é uma das causas da chamada chuva de relevo. O monte a barlavento está quase sempre verde. A generosidade das águas permite a alegria, o ornamento natural, o refrigério, a receptividade à semente, a louvação ao cosmo. O sota-vento é a parte do morro oposta ao vento. Ao sota-vento, o vento chega seco e ajuda a maltratar o solo e a vida.
       Na política, a ciência de comandar, é semelhante aos fenômenos geográficos. O bom político é acima de tudo um bom caráter. O legítimo representante do povo é uma pessoa constantemente preocupada com o bem-estar da sua gente. Tendo como exemplo um prefeito, a primeira coisa que faz é acercar-se de pessoas decentes e capazes de, com ele, realizarem um trabalho planejado para o beneficiamento geral dos seus munícipes. Atende a todos com urbanidade, discute os problemas com seu povo e os encaminham com boa vontade as soluções. É ocupado, mas não humilha, mantém um diálogo constante com os mais frágeis nas áreas urbana e rural. Não governa para amigos, compadres, parentes, familiares, nem somente para a elite. Governa para todos, procurando eliminar vícios, zelando por uma cidade limpa, ruas livres de entulhos, terrenos baldios abertos, animais à solta, criação de porcos. Vai abrindo novas passagens, becos, ruas, avenidas, dando diretrizes, zelando pelo patrimônio público, valorizando as tradições, fomentando o progresso com emprego e renda. É humilde, amigo, receptivo, sem vacilar na autoridade que lhe foi outorgada. Não anda metido em escândalos e tem a admiração do povo que o elegeu. Mesmo que não faça tudo nas diversas áreas da sua competência, detém o reconhecimento público por todo esforço empregado e bom relacionamento com seus munícipes. Eis um líder. Esse é o prefeito barlavento.
       Como seria então o prefeito sota-vento? É seco. Governa para meia dúzia, preferencialmente para familiares e minoria. Despreza o povo, só atende aos escolhidos, distribui esporros e piadas, acerca-se de bonecos. Acha-se melhor do que os outros, aposta na imortalidade dos encarnados, ilude-se com o prazo de gerência, conduz a humilhação como bandeira. Não tem vínculo às massas. É xingado, odiado por onde passa numa sucessão de pragas que um dia tornar-se-ão palpáveis. Mantém-se no poder apenas pela força do suborno às autoridades outras, tão imundas quanto ele. É filho de satã, travestido de púrpura e que deixa morrer de fome e vergonha, os que a eles trata como escravos e não como credores. Espinho de mandacaru, furador e torturador dos humildes que o elegeram. Algo razoável, só de mau humor (ruindade nos cromossomos). Eis aí o prefeito sota-vento.
       Como você classifica o seu presidente, governador ou prefeito, meu amigo? Pode até haver um meio-termo, mas não deixa de ser apenas um véu de filó ou de gorgorão que encobre um dos dois: BARLAVENTO OU SOTA-VENTO.



A PACIÊNCIA DO POVO (Clerisvaldo B. Chagas, 27 de janeiro de 2011).        Para a linguagem das ruas, o pau estar comendo no Egito. Havia ...

A PACIÊNCIA DO POVO

A PACIÊNCIA DO POVO
(Clerisvaldo B. Chagas, 27 de janeiro de 2011).

       Para a linguagem das ruas, o pau estar comendo no Egito. Havia certa quietude no norte da África, ouvindo-se falar em agitações e mesmo guerras civis, abaixo da faixa saariana. Mas agora, quando o povo cansado de ditadura, botou a correr o dirigente da Tunísia, as ações de revoltas iniciam a moda também na parte setentrional do continente. O Egito, celebrando um acordo de paz com Israel em 1979, passou a ser aliado dos Estados Unidos e um moderador nos conflitos entre as nações árabes e Tel Aviv. O Egito, de tantas glórias no passado, é hoje uma república governada por um primeiro-ministro e um presidente. Na prática mesmo, quem manda é o presidente, no caso, Mohamed Hosni Mubarak, já com 82 anos de idade e no poder há mais de 50, sempre se saindo nos pleitos eleitorais como candidato único. As próximas eleições estariam marcadas para setembro próximo, quando Mubarak, apresentaria seu filho Gamal.
       Como as comunicações vão ficando mais fáceis no mundo, todos os povos vão sabendo o que se passa no restante do planeta. Assim vão caindo ─ devagar ou com revoltas ─ costumes bárbaros civis ou religiosos, ditadores, preconceitos contra negros e mulheres, amarras contra a liberdade total do homem e tantas outras coisas que o mundo civilizado pensa não existir. A fechadura oxidada de Cuba, China, Coreia do Norte, Venezuela que privam o povo da liberdade, quebrar-se-á hoje ou amanhã, assim como foi destroçada a da Tunísia e ameaçada a do Egito. O confronto no centro do Cairo, entre população e polícia, já matou mais de seis pessoas, deixando 50 feridas e 800 presas. Milhares investem contra o poder, o desemprego, a inflação, a corrupção, pedindo a saída de Mubarak, do primeiro-ministro e a dissolução do parlamento, na ânsia de um governo de unidade nacional. É de se saber que o Egito, com 80 milhões de habitantes, para a África tem posição de cabeça, mas ainda são muitos os problemas a serem resolvidos. 40% da população vivem com dois dólares por dia e um 1/3 do geral são de analfabetos. Sua economia baseia-se na Agricultura média, no petróleo e no Turismo.
       Para Estados Unidos e União Europeia, O Egito de Mubarak, representa um moderador nas brigas da região, mas também ponto de apoio e até de exploração do Ocidente. A imprensa oficial procura minimizar a revolta, mas a instigação pelo derrubada do atual governo, cada vez ganha mais força e o povo adere aos apelos da Internet. Tanto a UE quanto os EUA, pedem de uma forma patética ao senhor Mubarak, reformas políticas, econômicas e sociais. Lembram-se da História do Brasil, quando o ministro Ouro Preto pensou no assunto para não cair? Era tarde demais. Queda de Ouro Preto, queda de D. Pedro II, queda da Monarquia. Foi proclamada a República, imediatamente. Mas ainda existem muitos ditadozinhos ordinários que fazem dos olhos vidros foscos e dos ouvidos caixas de ilusão. Raramente um ordinário desses pensa na PACIÊNCIA DO POVO.




HISTORIANDO A LINHA (Clerisvaldo B. Chagas, 26 de janeiro de 2011).         Falar sobre a cidade ribeirinha alagoana de Piranhas é tarefa p...

HISTORIANDO A LINHA

HISTORIANDO A LINHA
(Clerisvaldo B. Chagas, 26 de janeiro de 2011).

        Falar sobre a cidade ribeirinha alagoana de Piranhas é tarefa para muitos dias de computador. Mas hoje não vamos nos ater às belezas daquela, designada por mim, como “Cidade Presépio”. O compromisso do momento é falar sobre a ferrovia de Piranhas. A cidade foi construída por D. Pedro II para servir de entreposto entre o baixo São Francisco e o alto Sertão de Alagoas e Pernambuco. Para melhor entendimento, é sabido que no final do século XIX, os navios subiam o rio São Francisco até Pão de Açúcar e Piranhas. Daí as mercadorias passavam para frotas de carros de boi que distribuíam pela zona oeste do estado. As grandes embarcações não podiam navegar entre Piranhas e Paulo Afonso, na Bahia. A construção, portanto, de uma via férrea de Piranhas a antiga Jatobá (Petrolândia) via Paulo Afonso, foi planejada e executada. Já havia em Alagoas, ramais na zona da Mata. A ferrovia Piranhas ─ Jatobá, teve início em 1879, tendo sido entregue ao tráfego em 1883, tendo a frente o engenheiro André Rebouças. A bela estação, em estilo barroco, foi inaugurada em 25 de dezembro de 1881. Essa ferrovia, cumprindo o seu papel de transportar passageiros e mercadorias dos navios para o alto Sertão de Alagoas e Pernambuco, foi arrendado a Great Western em 1901. Permaneceu sempre uma ferrovia isolada, isto é, nunca interligada a outros ramais. Em 1964, 81 anos depois de inaugurada, alegando prejuízo, desativaram as atividades da ferrovia de Piranhas. Seu trajeto representava quase 116 km.
       Falar sobre a história de Piranhas é reescrever a saga de Delmiro Gouveia e os inúmeros episódios da vila da Pedra. A região enche sobejamente os embornais de História, Geografia, Economia e Sociologia da época dos coronéis. Na estação de Jatobá, Lampião, enfurecido, escreveu na parede: “Polícia Podre!” O trem não tinha horário certo de chegar ou sair, na fase do cangaço, porque dependia da proteção e disponibilidade das chamadas volantes.
       No meu romance (ainda inédito) “Fazenda Lajeado”, machadeiros trabalham na fazenda e quando terminam a faina, vão embora para Piranhas trabalhar em madeira para dormentes. Quer dizer, com a ferrovia em pleno andamento, subtende-se manutenção. Fui a uma pesca em Volta do Moxotó, Pernambuco, e muito me impressionou a estação do lugar. Bem conservada e bela, assemelhava-se a de Piranhas. Os trilhos passavam sob um imenso braço d’água, servindo de ponte falhada, perigosa para os poucos transeuntes. História, história, história, perdida naqueles esquisitos. Estivemos na ponte sobre o rio Moxotó, construída para a ferrovia, com 147 metros, hoje ponte rodoviária. Estamos (ali na foto: Clerisvaldo; Juca Alfaiate, seresteiro; José Gomes, eletrotécnico; sargento Osman, delegado de Poço das Trincheiras; José Maria Amorim, professor; Manoel da Guanabara, comerciante e, Sebastião Poara, aposentado). Enquanto eles curtiam a farra e a pesca, eu mergulhava nos áureos tempos da ferrovia e seus incontáveis episódios para variadíssimos gostos. Ah! É um filme que passa HISTORIANDO A LINHA.