NÃO SEJA CORNO (Clerisvaldo B. Chagas, 10 de fevereiro de 2011).        De vez em quando surge na mídia algo inusitado que vai quebrando a...

NÃO SEJA CORNO

NÃO SEJA CORNO
(Clerisvaldo B. Chagas, 10 de fevereiro de 2011).

       De vez em quando surge na mídia algo inusitado que vai quebrando a rotina da eterna violência. Dessa vez a notícia deixou o cantinho da página para ocupar espaço de destaque no refinado humor eclesiástico. O fato aconteceu na cidade de Apucarana, norte do Paraná, diante dos fiéis que lotavam a Catedral de Nossa Senhora de Lourdes. O padre Roberto Carrara, cansado dos atrasos burocráticos dos noivos paroquianos, passou a cobrar nada mais nada menos de que R$ 500,00 por atraso dos noivos com os compromissos assumidos com a igreja. A quantia, transformada em cheque virou caução. Chegar na hora marcada para o casório tem o cheque devolvido, caso contrário o “não borrachudo” irá para os cofres necessitados da Catedral. E se você pensa que isso foi imposição, pode tirar a potranca da chuva. O padre não é besta. Apresentou vídeo com a nave lotada e voto por aclamação dos seus seguidores. Celebrando ali há mais de vinte e sete anos, os setenta e um anos de idade lhes aconselhou acalmar os cabelos brancos com os quinhentinhos na caixa paroquial.
       Em Alagoas, recentemente, houve um fato que se arrastou como o “Bem Amado” da televisão brasileira. O padre do povoado Fazenda Nova, município de Olivença, resolveu cerrar as portas da igreja durante os festejos do padroeiro local. Daí em diante a comédia se prolonga em lances divertidíssimos, em entrevistas de puxa-sacos na rádio de Santana, cidade próxima. A coisa digna da fantasiosa “Sucupira” é de morrer de rir. Personagens: padre, bispo, prefeito, vereadores, puxa-sacos, locutor, carreiros, devotos e paroquianos que fazem lembrar o nosso romance “Defunto Perfumado”. Há pouco também um sujeito irado quebrou uma capela no município alagoano de Craíbas, a oitenta quilômetros de Fazenda Nova.
       Em Santana do Ipanema, na década de 40, havia um pároco, cujos males faziam-no bastante nervoso. Gostava de mastigar pilhérias raivosas, aos seus paroquianos. Entre outras passagens, certa feita o ministro de Deus entrou em polêmica com um noivo matuto alegando que não faria o casamento do moço por que ele não se confessara. Testemunhas acorreram em favor do indivíduo. O cônego Bulhões ─ tremendo de raiva ─ concordou em celebrar o casamento. Ao terminar, porém, a curtíssima cerimônia, o padre, que gostava de repetir palavras quando estava daquele jeito, disse para o noivo: “Viu, viu... Tomara que não seja corno!”
       O padre Bulhões, famígero no Sertão, Agreste e Baixo São Francisco, não teve a ideia do atual colega de Apucarana, Roberto Carrara, em cobrar os quinhentos reais pelos atrasos de noivos capiaus. Mas o padre Carrara, bem que poderia acrescentar aos seus castigos pelos atrasos dos nubentes (além de embolsar os quinhentinhos) a frase do sacerdote penedense: “Viu, viu... Tomara que NÃO SEJA CORNO!




OS AVIÕES DE LULA (Clerisvaldo B. Chagas, 9 de fevereiro de 2011)        Ao vermos os vasos de guerra e aviões modernos sobrevoando o Egit...

OS AVIÕES DE LULA

OS AVIÕES DE LULA
(Clerisvaldo B. Chagas, 9 de fevereiro de 2011)

       Ao vermos os vasos de guerra e aviões modernos sobrevoando o Egito, vamos imaginando quanto inúteis eles foram para aplacar a ira popular. E vendo as estratégias usadas atualmente pelas nações menores em material bélico, é de se indagar se os superpoderes militares são mesmo invencíveis e necessários. Hoje em dia somente os desavisados ousam enfrentar batalhas abertas como aconteceu na II Grande Guerra. Como discutíamos antes, na “Esquina do Pecado” os embates do mundo, fácil é entrar militarmente em um país, o difícil é sair. Isso era dito na mesma esquina, em Santana do Ipanema, com o nosso fiel amigo Mileno de Melo Carvalho, que se tornou mais tarde um membro concursado da Petrobrás. Foi justamente essa a lição que o Vietnã deu aos Estados Unidos e, o Afeganistão a Rússia. Uma lição de que vai ficando cada vai mais inútil, um enorme aparato bélico, que termina em gasto de milhões para escová-lo. Como foram derrotados Estados Unidos e Rússia pelo sistema de guerrilha, também havia sido derrotado o militar mais poderoso do globo após a Revolução Francesa. Napoleão Bonaparte fez rolar nas suas estratégias e investidas inúmeras cabeças de monarcas por dentro da Europa. Seus exércitos poderosos varreram o continente, espalhando o terror e a fama de maior do mundo. Entretanto, Bonaparte começou a perder o poderio no enfrentamento de guerrilhas ao invadir a península Ibérica, ocasião em que D. João VI fugiu para o Brasil.
       Como uma coisa puxa outra, pensamos também nas malogradas compras do, então, presidente Lula. Após negócio quase fechado com a França, o homem foi obrigado a recuar e sair adiando as palavras em relação aos quarenta e seis aviões para modernizar as forças armadas. Nos bastidores, o Brasil queria mesmo obter cem aeronaves. A língua solta da precipitação e recuada de Luís Inácio foi um negócio feio, tanto para outros países, quanto para nós brasileiros. Como o automático explosivo ficou ligado, poderia explodir nas mãos da presidenta logo nos primeiros dias de mandato. Significaria, na prática, muitos aborrecimentos nos bastidores com os países preteridos e reflexos ─ sem dúvida alguma ─ nas tramas escuras da balança comercial.
       Ah! Mas é um orgulho enorme, possuir forças armadas dentro dos padrões de potência. Daí o atraso do Brasil em pesquisas que ainda não nos permite fabricar as nossas aeronaves de ataque. Lembra a crônica em que falamos sobre os nossos cientistas? Nossos maiores laboratórios talvez estejam nas várzeas, no interior, nas periferias, descobrindo jogadores de futebol para milionários campos europeus. Se vencermos hoje a França, talvez esqueçamos os famosos “aviõezinhos” que iriam defender a riqueza de campos petrolíferos. Sem grandes guerras, sem guerrilhas sul-americanas, sem pré-sal para hipertensos, vamos aguardando pacientemente o desfecho dos AVIÕES DE LULA.

1808 (Clerisvaldo B. Chagas, 8 de fevereiro de 2011)        Na verdade , eu nem estava ligado ao assunto, quando a campainha toca. Vejo dia...

1808

1808
(Clerisvaldo B. Chagas, 8 de fevereiro de 2011)

       Na verdade, eu nem estava ligado ao assunto, quando a campainha toca. Vejo diante de mim, nada mais nada menos do que o embaixador do Mato Grosso do Sul, santanense verdadeiro, João Neto de Dirce, o “Primo Vei”. A saudade havia batido às costas do cabra e ele resolveu vir reparar de perto amigos, pedaços de caatinga e os balanços dos mandacarus. Veio rezar o Credo na igrejinha do Cruzeiro, comer bode assado no Bairro Camoxinga e tomar uma pinga da ancoreta de imburana-de-cheiro, perto da Rua Nova. Na certa lembrava as serras do Gugi, Gonçalinho, Camonga, as águas do poço dos Homens... Os jogos de ximbras da Rua do Sebo. Eita Primo Vei, lá fora é que a gente sente o amor sertanejo espezinhar o coração. Saudades da moreninha debruçada na janela, do ornejar do jumento ao meio-dia, do cuscuz com leite à boca da noite. Como você podia resistir lá em Sidrolândia às lembranças dos plangentes violões da Rua Tertuliano? E o ressoar de vozes masculinas apaixonadas, pelas noites musicais. Como podia jogar fora os invernos friorentos e tristonhos do mês de julho? A solidão das ruas nas madrugadas enfeitiçadas de Santana, o sereno de junho sobre as fogueiras de São João ou o chiado da sanfona velha no cabaré do Olegário?
       Houve troca de presentes. O embaixador presenteou-me com dois livros e, um deles já o devorei. Trata-se de (GOMES, Laurentino. 1808: como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. 2. ed. São Paulo, Planeta, 2010). O outro é a continuação e tem como título: 1822. Estamos recomendando estes livros aos nossos leitores, principalmente aos que procuram entender o Brasil da época. Finalmente surgiu no mercado esse excelente livro, 1808, do ilustre jornalista Laurentino Gomes, para os que já estavam com saudade de uma leitura informativa, rica e agradável. Os dez anos de pesquisa do autor sobre a família real, vem com uma leitura objetiva, clara, que foge do colorido literário, nessa narrativa da história. Quando o leitor estiver lendo e não quiser largar o livro, prova que o livro é bom. Todo o esforço do jornalista ─ que tem uma rica biografia ─ compensou o seu trabalho. O livro traz a lume questões importantíssimas, importantes e aparentemente menos importantes. Porém, nada é menos importante na apresentação de Gomes que descreve o modo de vida no Rio de Janeiro, a comida, a higiene, a escravidão, as prostitutas, as “piniqueiras” e muito mais. O livro é riquíssimo sobre a época, um verdadeiro tesouro de tantos pedaços que formam o todo. Irei apreciar agora o 1822. O embaixador levou para o Mato Grosso do Sul, uma pintura em tela de autor santanense, para a apreciação de Sidrolândia sobre o talento nordestino. O Primo Véi, desapareceu tão misteriosamente como surgiu. Será que ele esteve mesmo por aqui? Bem, pelo menos ao meu lado estão as provas: 1822 e
1808.