SOBRE MIM

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.
O BERRO DO BOI Clerisvaldo B. Chagas, 3 de agosto de 2022 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.745 Meu amigo quer fa...
O
BERRO DO BOI
Clerisvaldo
B. Chagas, 3 de agosto de 2022
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.745
Meu
amigo quer fazer um churrasco, mas não sabe a melhor carne a ser usada.
Independente do preço muita gente não sabe também qual é o melhor pedaço do
boi. Essa polêmica presenciei nos anos 60 entre boiadeiros e fazendeiros. Cheguei
à conclusão que todo o questionamento é questão de gosto. Um dizia: “A
melhor carne do boi é a chã de fora”. Era rebatido: “De fato é gostosa, mas é
dura, prefiro a chã de dentro”. Um terceiro: “A melhor carne é o filé”. Novo
rebate: “Não gosto, só fede a mijo”. Resolvemos dá uma forcinha, mas continua
sendo uma questão de gosto. As carnes geralmente são chamadas de primeira e de
segunda conforme a parte do boi de onde é retirada. A traseira é considerada de
primeira e ali estão as chamadas carnes nobres; a dianteira são as de segunda,
mais ou menos assim distribuídas:
Na
traseira da rês estão, de cima para baixo na anca do boi: Picanha, lagarto, chã
de fora, chã de dentro, patinho. Mais abaixo Alcatra, maminha da alcatra,
fraldinha, ponta de agulha e músculo
Dianteira:
Acém, pescoço, peito, paleta (perna).
No
meio da rês: de cima para baixo: filé mignon, filé de costela, contrafilé, capa
de filé e aba de filé.
Assim
fomos a um churrasco delicioso e na medida, como dizem por aqui. Mas o
comandante da festa diz: “Não perguntam nem que tipo de carne está no prato?”. E
nós: “Quando terminar a brincadeira, perguntaremos”. Parece até um sacrilégio
falarmos sobre churrasco no Brasil nesses dias em que muita gente estar
passando fome, comprando osso e vendo carne de boi somente na propaganda.
Mas
no Brasil, o boi estar representado em todas as Grandes Regiões, até mesmo na
Amazônica onde o gado é introduzido na marra. Quem não gosta do boi neste País,
gosta da vaca. Quem lembra do filme “Vidas Secas”, baseado no livro de
Graciliano Ramos?! Aparece um folguedo de Guerreiro onde o boi é cantado
dramaticamente. E enquanto vamos exportando carne bovina para o resto do mundo,
o preço do boi gordo dispara nesta nação e dá um coice dos diabos na refeição
diária de boa parcela da população.
E
com esse desembesto nos preços, churrasco agora só se for do Bumba-Meu-Boi que
berra nos festivais de Maceió.
BERRO
DO BOI (FOTO: DANILO)
CAFÉ PEQUENO Clerisvaldo B. Chagas, 2 de agosto de 2022 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.744 Nesse momento de mu...
CAFÉ
PEQUENO
Clerisvaldo
B. Chagas, 2 de agosto de 2022
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 2.744
Nesse
momento de muita frieza no Sertão e tempo serenando, nada melhor de que um
cafezinho com o delicioso bolo de macaxeira. Mas a mente vai buscar os anos 60
em Santana do Ipanema, quando o destaque desta bebida arábica, estava no Café,
estabelecimento comercial do saudoso Maneca, que ficava bem perto do Museu e
vizinho à nossa loja de tecidos. Não vem à lembrança o nome exato na fachada,
mas parece ter havido apenas o nome “Café” e o povo complementava como “Café de
Maneca”, o mais gostoso da cidade. Ali era servido pequenos lanches tal pão com
manteiga, café com queijo, bolo, pão doce; refrigerantes, e, para os viciados,
Cigarro Continental e cervejas. Quanto à geladeira, um desses raros utilitários
de Santana, mostrava qualidade insuperável: gelava que era uma beleza!
O
café de Maneca era classificado no modo de pedir: “Maneca, um café pequeno”, vinha,
então um café numa xícara de chá que também era chamado simplesmente de
pequeno: “Dê-me um pequeno”, O proprietário já sabia. “Maneca, um café grande”,
vinha uma xícara normal, cheia. Mas ainda havia o pedido: “Maneca, meio café”.
Saía o café com apenas a metade de uma xícara normal. E perguntado sobre como
conseguia fazer café tão saboroso que nem em casa se fazia, o homem respondia
na hora: “É simples, misturo o café de segunda com o café de primeira”. E para
quem conheceu a marca “Café Afa”, cujo complemento dizia, “o café que abafa”,
vinha da torrefação Antunes de Maceió, embalado em pacote de café de primeira e
café de segunda. Ambos excelentes!
Entre
a nossa loja e o Café de Maneca, havia vez em quando, rodas de boiadeiros
botando a conversa em dia. Em nossa terra boiadeiro é o homem que compra e
revende boiadas. Em umas dessas rodadas, falavam dos prejuízos que tiveram e
como transportavam dinheiro driblando possíveis ladrões. Ali estavam Arnóbio
Chagas, Pompeu, Lucas, Enéas e outros mais. Foi quando o Lucas falou: “Eu tive
um prejuízo tão grande que passei mais de quinze dias só tomando cafezinho”.
Naturalmente, entre esses cafés estavam os de Maneca.
Hoje,
meditando nesse inverno que nos encolhe em casa, vou lembrando dos anos 60,
levando à vida entre café grande, café pequeno e meio café.
CAFÉ
PRETO (FOTO: iSTOCK)
JULHO/JULHO Clerisvaldo B. Chagas, 29 de agosto de 2022 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 2.742 Acabando o prazo de val...
JULHO/JULHO
Clerisvaldo
B. Chagas, 29 de agosto de 2022
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica:
2.742
Acabando
o prazo de validade, o mês de julho cumpriu o seu papel em solo sertanejo
alagoano. Chuva, frio e festas por todos os lugares, apesar de tantas mortes
nos últimos tempos. O frio ainda estar sendo de “torar os ossos” e alguns
agricultores estão perdendo lavoura com a frieza. Agosto vem aí encangado para
terminar o nosso inverno e quem sabe! Poderá ser ou não que resolva manter a
escrita dos quinze dias mais frios do ano em sua primeira quinzena. Com a
poderosa festa de Senhora Santana pedindo pelo sertão inteiro, poderemos
almejar um agosto suave, amenizando assim a sua fama de mês das grandes
tragédias. Água armazenada em açudes, barreiros... Tem muita por aí à fora,
esperamos que seja o suficiente para chegar até as trovoadas, esperanças a partir
do mês de novembro.
Ontem,
28, faz lembrar o dia 28 de julho de 1938, quando foi anunciado o fim do
cangaceirismo no Nordeste. O fim de Lampião e seu bando, representou a vitória
da sociedade e do bom senso sobre a barbárie. Batalhão alagoano formado e
deslocado para Santana do Ipanema, chegou à cidade em 1936, para combater e
extirpar o cangaço que deixava em polvorosa sete dos nove estados nordestinos.
O comando do Batalhão pertenceu ao, então, tenente Lucena, pela sua bravura e
experiência de combates ao banditismo no alto Sertão. Dois anos após a chegada
do Batalhão em Santana – ele, que fora dividido em várias forças-volantes –
usando três dessas forças, conseguiu acabar o chamado “Rei do Cangaço”.
Faleceu o padre Cícero Romão Batista, no dia
vinte também de julho. Lampião, célebre pela perversidade, Padre Cícero,
famigerado pelas suas virtudes. Aliás, o chefe cangaceiro fora para a grota da
fazenda Angicos, em Sergipe, para descansar, rezar e meditar durante a semana
de morte do santo padre do Juazeiro do qual fora devoto à distância. Ali
encontrou a morte na madrugada friorenta, tradição de julho. “Frio de matar
sapo”.
Lucena foi promovido a coronel, chegou a ser prefeito eleito
por Santana do Ipanema – sede do 70 Batalhão – foi deputado e prefeito de Maceió e ganhou nome de
avenida na “Rainha e Capital do Sertão”.
Julho era e é assim.
CAPA DO LIVRO LAMPIÃO EM ALAGOAS (FOTO B. CHAGAS)

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.