SOBRE MIM

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.
PALAVRAS Clerisvaldo B. Chagas, 26 de junho de 2024 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3.067 Existem palavras que se...
PALAVRAS
Clerisvaldo B. Chagas, 26 de junho de 2024
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 3.067
Existem palavras que se perdem no tempo por
falta de uso. Outras continuam ativas, porém ninguém lembra mais o significado.
Foi assim quando nós viajávamos numa Van e uma passageira pediu para deixá-la
no Guari. Isso na região de Cacimbinhas,
Alagoas. Fiquei curioso com a palavra
que jamais ouvira falar. E se perguntasse a qualquer um, a resposta seria um
lugarejo na periferia da cidade. Sim, mas o que significa Guari ninguém sabe, nem eu sei. Mas que o
termo ficou martelando a minha curiosidade, ficou. Tempos depois fui às
pesquisas e, tudo que encontrei foi “uma espécie de palmeira” ou “um tipo de
ave”. E no Poço das Trincheiras, o seu maior povoado é o Quandu, mas o que é
Quandu? Outro desafio.
Quandu significa porco-espinho e não se pode
confundir com Guandu que é uma espécie de feijão. Mas eu duvido que a maioria
dos habitantes do povoado Quandu, saiba sobre a origem do nome. Porém, a
palavra mais difícil de encontrar até hoje, foi “Minuino”, antiga travessia no
rio Ipanema citado em artigos da década de 30. Nada. Nada a seu respeito
consegui até agora. E se algum leitor curioso achar essa fonte, peço a
gentileza de repassar para nós, o povo santanense. É claro que a busca de palavras estranhas
para nós traz conhecimentos, mas não deixa de ser uma forma proveitosa de
lazer. Essa mistura da linguagem indígena, africana, portuguesa e outras
estrangeiras, enriquece os dicionários e endoidam a cabeça dos pesquisadores.
Bonito é o nome Araçá e Santana do Ipanema
Possui três sítios rurais com essa denominação. Mas será que ainda existe araçá
naqueles sítios? Nunca vi um araçá de verdade, mas dizem que é uma fruta
parecida com a goiaba que pode ser consumida in natura e ser transformada em
geleia, sorvete, sucos... Mas não aparece um só estudioso no Sertão para resgatar
esse fruto, inclusive para a indústria. Onde estão nossos professores biólogos
que só se movimentam entre quatro paredes da escola. E a falta de iniciativa de
gente estudiosa já fez perder muita riqueza do nosso bioma, tanto do reino
animal quanto do vegetal. Muitas denominações estão apenas na nomenclatura do
lugar. Pense no assunto.
CACIMBINHA (FOTO DIVULGAÇÃO)
FACHEIRO Clerisvaldo B. Chagas, 25 de junho de 2024 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica: 3.066 Entre as espécies veget...
FACHEIRO
Clerisvaldo B. Chagas, 25 de junho de 2024
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica: 3.066
Entre as espécies vegetais do Sertão Nordestino,
destaca-se a cactácea Facheiro (Pilosocereus pachycladus). O Facheiro, um dos
mais fortes símbolos do Nordeste, disputa em beleza com o Mandacaru e
ornamentam muito bem a caatinga verde ou ressequida. Ambos são símbolos de
resistência, fortaleza e esperança. Ninguém sabe quantos milhões de fotos de mandacaru
e facheiro já foram espalhados pelo mundo. O facheiro, porém, difere um pouco
do mandacaru. Possui os seus braços mais delgados e contínuos, diferente do
mandacaru de braços grossos e intercalados. Ambos possuem uma infinidade de
espinhos e podem chegar até os dez metros de altura, embora o mais comum seja
em torno de cinco e seis metros.
O carpina da zona rural costumava fazer ripa e
até mesmo caibro dos braços dos facheiros. O artesão sertanejo usava suas
raízes para confeccionar colher de pau que seria vendida nas feiras e em alguns
estabelecimentos fixos. Sendo um vegetal nativo, o facheiro é muito respeitado
pelo homem rural que em condições normais do tempo o deixa em paz. Todavia, se
o tempo aperta o sertanejo com estiagem prolongada, o facheiro é cortado por
facões, transformado em fogueira leve quando perde ou amolece seus espinhos. É
utilizado, então para alimentar rebanhos caprinos, ovinos e bovinos. Na extrema
precisão também tem o seu miolo consumido pelo homem. Varia muito na cor que
vai de um verde agradável ao marrom enferrujado, principalmente no período de
seca.
Tanto o mandacaru quanto o facheiro têm forma
de candelabro. Altos e de braços erguidos parecem sentinelas do Exército
brasileiro. É como se fossem o pai espiando do alto todos os outros irmãos ou
filhos espinheiros menores. Um raso de caatinga sem mandacaru, sem facheiro,
parece perder completamente a graça da paisagem. É assim que estará na praça no
mês que vem, um dos meus quatro romances do ciclo do cangaço “DEUSES DE
MANDACARU”, que pelo visto acima também poderia ter sido titulado de “Deuses de
Facheiros”. Todos os quatro romances e mais um documentário da nossa história
estará sendo lançado de uma só vez em um dos dias da Festa de Senhora Santana,
se assim o bom Deus nos permitir. Mas aí já é outra história.
FACHEIRO (FOTO: PINTEREST).
SÃO JOÃO Clerisvaldo B. Chagas, 24 de junho de 2024 Escritor Símbolo do Sertão Alagoano Crônica:3.065 Toda mata tem espinh...
SÃO
JOÃO
Clerisvaldo B. Chagas, 24 de junho de 2024
Escritor
Símbolo do Sertão Alagoano
Crônica:3.065
Toda
mata tem espinhos
Toda
lagoa tem peixe
Toda
velha tem me-deixe
Toda
moça tem carinho
Quadrinha colhida nos Guerreiros e Reisados
alagoanos do passado. Folguedos que também se apresentavam no São João, Natal e
nos novenários da região sertaneja. Um brinde para o leitor e entusiasta do
nosso folclore.
O Dia de São João, refere-se a João Batista,
primo de Jesus e que o batizou no rio Jordão. Filho de Isabel e Zacarias, João
Batista tinha mais ou menos a mesma idade de Jesus, recebeu missões
importantíssima do alto, chegando a ser exaltado pelo Mestre em dizer que filho
de mulher ninguém fora maior do que João Batista. Amadíssimo no Brasil e
notadamente no Nordeste brasileiro, tem como um dos seus fortes símbolos, a
fogueira que significa luz, a luz de cristo e aquela fogueira que Isabel fez
para celebrar a gravidez de Maria. O dia de São João no Nordeste brasileiro é
esperado o ano inteiro, sendo nessa região a maior de todas as festas. Celebra
as chuvas no semiárido, a esperança, a fartura na agricultura e na pecuária. É
São João do carneirinho, abençoando o mundo.
Em nosso livro O Boi, a Bota e a Batina, História Completa de Santana do Ipanema,
já publicado, um dos boxes, “Memorial Vivo”, está descrito, modéstia à parte,
magnificamente o São João dos anos 60, na Rua Antônio Tavares e que representa
uma crônica abrangente para todo o nosso semiárido da época. Era a Rua da
Cadeia Velha, a Rua dos Artífices, realizando o grande espetáculo do ano com
sua fila quase infinita de fogueiras, bombas, diabinhos, rojões, chumbinhos,
traques, beijos-de-moça, peido-de-velha, foguetes e balões. José Urbano era o primeiro a acender a
fogueira e Manezinho Chagas, o último a tocar fogo no monte de lenha. Nem vamos
falar das comidas e bebidas típicas que continuam as mesmas, porém a fogueira,
símbolo maior, encontra-se em extinção com a chegada do asfalto e a nova
consciência ecológica.
No local onde moro, no princípio foram
construídas 18 casas (uma delas é a minha) receberam o título de Conjunto São
João. A Priore, diz assim a Maçonaria: “Louvemos a São João, nosso padroeiro”.
SÃO JOÃO (PINTEREST).

Sou Clerisvaldo B. Chagas, romancista, cronista, historiador e poeta. Natural de Santana do Ipanema (AL), dediquei minha vida ao ensino, à escrita e à preservação da cultura sertaneja.