FUSCÃO PRETO ...

FUSCÃO PRETO

FUSCÃO PRETO
(Clerisvaldo B. Chagas. 5.11.2009)

Meu amigo José morava no quadro do comércio de Santana do Ipanema, Alagoas. Durante a festa da padroeira Senhora Santa Ana, nunca faltam barracas de bebidas que concorrem com os bares fixos. São nove noites bem movimentadas entre o religioso e o profano. As barracas são bastante procuradas e quase sempre amanhecem na força do movimento. Em uma daquelas noites meu amigo José cismou e não saiu à rua. Acontece que havia uma dessas barracas a cem metros da sua residência que não o deixava dormir. Estava nas paradas à conhecida música “Fuscão Preto” que fez sucesso em todas as camadas sociais. Já era a madrugada das três horas, mas o disco “Fuscão Preto” parecia enganchado. Quando o barraqueiro completou a décima quinta rodada, José tomou uma decisão. “Hoje aquele peste me paga. Tá pensando o quê? Ele é o dono da festa, por acaso? José pegou uma 765, encheu de balas, coloco-a na cinta e saiu pensando: “Vou atirar no som, nos peitos do dono e até na p... da mãe dele se ela aparecer. Não... É melhor ir devagar. Vou conversar logo mansinho com o cara, mas se o sacana se alterar, aí eu lhe esfrego essa pistola na venta e pronto”.
José abriu a porta da frente e não viu quase ninguém na rua. Cada passo dado, um pensamento novo. Passou o vigia da praça, dobrou a esquina uma piniqueira, mas o “Fuscão Preto” não parava de rodar. José levou a mão à cintura, apertou a coronha, sentiu-se mais seguro e renovou as ameaças para seus botões. Chegou perto da barraca, parou e, com os olhos fotografou o ambiente. Havia somente um casal, cujo homem parecia embriagado. E “Fuscão Preto” rodava e “Fuscão Preto” repetia e “Fuscão Preto” não parava. José chegou devagarzinho ao balcão, apoiou bem os cotovelos e antes de abrir a boca, o barraqueiro adiantou-se com sorriso largo: “Seu José, o senhor por aqui. Como foi bom ter chegado! Eu já estou que não aguento com aquele cidadão pedindo ‘Fuscão Preto’ o tempo todo. Mande às ordens”.
A raiva do meu amigo foi amaciada 50%. José olhou para o casal, o homem estava de cabeça baixa. Entretanto, a mulher, “morenona” criada à base do cuscuz com leite, aboticou os olhos para o seu lado. A raiva do meu amigo foi amaciada em 25%. Para completar, José que gostava dessas oportunidades, teve vontade de beber. A raiva do meu amigo foi amaciada em mais 25%. Foi quando a mulher sorriu de lá, ele respondeu dali e achou que havia completado os 100. José perguntou através da mímica, se ela estava gostando da música. A morena levantou o polegar e o barraqueiro destampou uma cerveja à mesa do casal. Aí o meu amigo José, com certeza da transformação e da vitória, chamou o dono da espelunca e disse. “Joaquim, também quero dar lucro ao seu bar, mas tem uma coisa: só me traga uma daquelas geladinhas se você me deixar ouvir o “Fuscão Preto”. O barraqueiro bateu com as duas mãos na tábua, aumentou o tamanho da boca de jiboia e gritou animado: “Eita, peste! Enquanto o primeiro freguês cochilava, sumiu a morena da mesa, desapareceu meu amigo José. As cervejas ficaram pela metade, o dia queria amanhecer, e até umas horas, reinou pleno, absoluto e abusado, só o “pito” do velho “FUSCÃO PRETO”.

O PICOLÉ DE SEU NOZINHO (Clerisvaldo B. Chagas. 4.11.2009) Firmino Falcão Filho, também chamado “Seu Nozinho (ô)” ou simplesmente Nozinho, f...

O PICOLÉ DE SEU NOZINHO

O PICOLÉ DE SEU NOZINHO
(Clerisvaldo B. Chagas. 4.11.2009)

Firmino Falcão Filho, também chamado “Seu Nozinho (ô)” ou simplesmente Nozinho, foi personalidade importante em Santana do Ipanema. Fazendeiro, comerciante, dono de prédios, chegou a ser prefeito gestão 1947-48. Vindo da Zona da Mata, logo se adaptou bem nessa cidade sertaneja. Entre as suas versatilidades, estava a de brincar o carnaval sozinho. Era o folião solitário que apenas com uma fina máscara percorria as ruas da cidade. No Bairro Monumento, defronte o casarão do Ginásio Santana, do outro lado da rua “Seu Nozinho” abriu uma sorveteria. A nova casa recebeu o sugestivo nome de “Sorveteria Pinguim” e com essa denominação passou muito tempo no bairro. Em 1959, na gestão do Prefeito Hélio da Rocha Cabral de Vasconcelos, foi construído um palanque oficial para o município destinado aos eventos da terra. O lugar escolhido foi a “Sorveteria Pinguim”, na parte superior, uma vez que o terreno daquele comércio pertencia à Prefeitura. Com o forte calor de verão, o ramo do gelo parecia ser bom negócio. E Firmino Falcão Filho passou a vender sorvetes e picolés aos alunos do Ginásio Santana, aos do Grupo Padre Francisco Correia, aos passantes... Aos matutos vindos para a feira do sábado. Quando não havia freguês, caso surgisse um bom conversador, Firmino Falcão Filho puxava os assuntos das suas realizações do tempo de prefeito.
Certa vez eu estava perto do balcão quando chegou um campesino querendo picolé. “Seu Nozinho” abriu a tampa do depósito, o homem escolheu rápido pelas cores e logo estava com um picolé verde-folha às mãos. Chupou o picolé, mordeu, mastigou e perguntou ao comerciante de que era feito aquele verdão. “Nozinho” não contou conversa e respondeu: "De folha de catingueira”. O matuto olhou de lado, fez cara feia e saiu resmungando. Logo apareceu um rapaz querendo a mesma coisa. Pegou o picolé, passou a língua, e perguntou de que era. “Seu Nozinho”, falou brincando ou não: “Você que estar chupando não sabe, quanto mais eu”.
Eleições no interior é uma festa. Muitas coisas acontecem em todos os lugares, inclusive comentários incríveis. Meses depois de uma delas haver sido realizada, eu conversava com um senhor do pé da serra. Ele me falava de uma fila enorme que havia sido formada no centro de Santana para receber notas de cem, novinhas em folha. Deixamos o assunto de lado e começamos a contar casos humorísticos. Depois que ele contou várias passagens, eu passei para ele o caso dos picolés. O matuto, ao invés de gargalhar, olhou-me admirado, pensou um pouco e voltou imediatamente a sua cabeça, o caso da eleição. Apenas cruzei as pernas e mostrei indiferença quando o caboclo rebateu filosofando: “Ah, quer dizer, então que aquela fila enorme da gota serena, era apenas para receber O PICOLÉ DE “SEU NOZINHO”.

CLAUDIO CANELÃO (Clerisvaldo B. Ch...

CLAUDIO CANELÃO

CLAUDIO CANELÃO
(Clerisvaldo B. Chagas. 3.11.2009)

Quando brincávamos na Rua Antonio Tavares, ainda sem calçamento, conhecemos o Claudio que exercia a profissão de sapateiro, bem perto da Travessa maior Benedito Melo. Sendo alto e seco, o sapateiro logo ganhou o apelido de Claudio Canelão. Claudio era uma daquelas pessoas que ninguém adivinha a idade. Poderia ter entre 18 e 25 anos. Caladão, bigodinho e voz horrível. Na época, a grande sensação de todas as ruas sem benefícios, para a meninada era o jogo de ximbra. O jogo com essas bolas-de-gude era chamado de “Papão”. Quem jogava muito bem era chamado de “rato”. Ou se jogava “brincando” ou se jogava valendo uma ximbra por partida. Normalmente ganhávamos ou perdíamos no plano e nos três buracos no solo, entre eles o “Papão”. As vias ficavam repletas de meninos jogando, principalmente nas ruas Antonio Tavares, Senador Enéas e São Pedro. Acontece que o sapateiro também tinha uma atração muito grande por essas pequenas esferas. Era um desastre quando Claudio Canelão chegava perto de um grupo que estava jogando. Quem se arriscasse a jogar com ele, não teria chance alguma. O ponto de partida de cada jogada era sempre feita de cócoras e medindo um palmo para arremessar a bola com o polegar. Todavia, o palmo de Canelão já era meio caminho andado. Nos acertos às bolas era o maior de todos os “ratos” das ruas. E assim o Claudio Canelão, naquela sede medonha, ia embolsando todas as nossas ximbras: velhas, desgastadas, novas, lisas ou coloridas. É certo que ninguém era obrigado a brincar com o sapateiro, mas jogo é jogo e o desejo de ganhar do forte também mexe no mais fraco.
Como as brincadeiras eram muitas ao longo das ruas, surgiram alguns prefeitos intolerantes e começaram a perseguir os jogadores, ou seja, às crianças. Essas perseguições estendiam-se também aos jogos de futebol e pinhão. Como nas ximbras, havia também os “ratos” no pinhão. Esse objeto tinha mais vigor quando era jogado pelos mais crescidinhos. O pinhão bonito industrializado ou aquele feito de goiabeira, tanto dançavam na mão, quanto lascavam ao meio a “mita” colocada. Entretanto, a tara do Claudio Canelão era somente com as bolas-de-gude que brilhavam pelas ruas. Levava todas as nossas ximbras com seu palmo danado e sua pontaria de demônio.
As crianças continuavam naquele estágio de brinquedos, pensando que no futuro tudo seria diferente. E vem a fase da escola, o crescimento, até que um dia também surge o período de análise da vida. Chegam os livros, o rádio, a televisão, o jornal, os comentários... E depois descobrimos que nas diversas administrações públicas que vamos conhecendo, raros, raríssimos mesmo, são diferentes de CLAUDIO CANELÃO.

OLHAI PELOS PEQUENOS (Cle...

OLHAI PELOS PEQUENOS
(Clerisvaldo B. Chagas. 2.11.2009)

em uma casa no sítio Luz do Dia, Município de Jacaré dos Homens, Alagoas, era um forte dia de verão. Várias pessoas estavam dentro da residência, quando uma rolinha penetrou de repente pela porta de trás e foi ficar na cumeeira. Mostrava-se cansada e nervosa como quem havia fugido de uma grande investida predatória. Houve certo alvoroço das pessoas que se alegraram e também quiseram capturar e abater a ave columbídea. O famoso poeta-repentista, Rafael Paraibano, tomou a frente e disse: “Essa ave é um ser vivo que invadiu a minha casa pedindo proteção. Como posso matar um ser que me pede socorro? Vamos protegê-la e soltá-la quando o gavião não estiver por perto”.
Quando algumas vezes falamos sobre a infâmia da classe política, de gestores de empresas estatais e outros, não falamos por falar e nem colocamos todos em um só processo. Falamos dos que não tem consciência, dos que não tem piedade, dos que não tem coração. Como pode um responsável pelo assunto deixar faltar merenda nas escolas de tantos alunos carentes? Isso é cortar todas as suas possibilidades de bom crescimento, é um crime horrendo que deixa marcas terríveis a médio e longo prazo. O que dizer dos que levam das escolas, a carne, o queijo, o leite e realizam suas feiras com a subtração das prateleiras escolares? E as filas que se formam todos os dias nos hospitais, nas casas de saúde, nos postos espalhados pelos municípios brasileiros? Onde estão os médicos? Cadê os medicamentos? Onde fica o humanismo em um país que estar entrando no primeiro mundo? Por que ao invés de protegerem os necessitados ainda lhes roubam o dinheiro, o direito, à vida? É certo que vivemos em um mundo de expiação, mas muitas vezes ele nos parece muito mais selvagem de que a própria selva. A corrida para tirar tudo que pertence ao pobre, está bastante parecida com as antigas corridas do ouro no velho oeste americano. Fica difícil consertar a corrupção por que ela se generalizou em todos os recantos. Se você tem quase nada, os goelas querem o seu quase nada. Nunca tantos acreditaram em tão poucos. Como dizia Lampião: “Comeram a consciência com farinha”.
E depois que o presidente disse que Jesus teria que fazer conchavo com Judas para ganhar as eleições, o que esperar mais dos homens desta nação de Santa Cruz? Não vemos outra saída a não ser uma grande mobilização nacional ─ de cunho permanente ─ por toda a sociedade organizada. Pois, até a última instância dos apelos populares está sem crédito de um real furado. Em outros aspectos continuamos como nas Idades Média e Moderna com o agravante cigano de outrora. Estamos cada vez mais carentes de exemplos dignificantes. Caímos no salvem-se quem puder ou no quem for besta beba gás. E, mesmo que o nosso grito seja rouco, estar sendo dado: Auxiliai os que sofrem, OLHAI PELOS PEQUENOS.





PENHA: NEM A SANTA ESCAPA (Clerisvaldo B. Chagas. 30.10.2009) Na cidade do Rio de Janeiro, cada recanto é um encanto. Já falamos aqui nas v...

PENHA: NEM A SANTA ESCAPA

PENHA: NEM A SANTA ESCAPA
(Clerisvaldo B. Chagas. 30.10.2009)


Na cidade do Rio de Janeiro, cada recanto é um encanto. Já falamos aqui nas variadas belezas que compõem o Rio. Não nos foi possível conhecer de perto o santuário católico, Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, conhecida como Igreja da Penha. O prédio estar situado numa grande massa de pedra aguda e isolada, no Bairro Penha. Aliás, a palavra penha, significa isso mesmo: penedo. Contam que antigamente o proprietário daquelas terras foi salvo de uma cobra ao invocar o nome de Nossa Senhora. Ali foi feita uma ermida e depois ampliada em 1728, quando colocaram um campanário com dois sinos. Na realidade, a paisagem é um verdadeiro espetáculo; entretanto, foi na voz do nordestino Luiz Gonzaga que a Penha ficou imortalizada. A letra e a música da canção de Gonzaga são um legado de admiração, vênia, fé e respeito à santa que domina o cenário carioca. Foi a partir daí que as fotos do lugar começaram a ganhar o território nacional. Aquele penhasco enorme com 382 degraus, com certeza não encontra similar no Brasil inteiro. As pessoas sobem o rochedo até de joelhos pagando promessas. A grande festa esperada acontece no mês de outubro, quando atrações diversas são oferecidas aos devotos que chegam de todos os lugares.
Atualmente a intensa guerra do tráfico, principalmente entre quadrilhas de favelas diferentes, tem profanado a belíssima relíquia brasileira. Sendo um ponto de altitude considerável, os bandidos invadem o templo católico e vão parar nas torres que observam os arredores. As ações efetivas de policiamento cidadão, já conseguiram apaziguar famosas favelas do Rio de Janeiro. Sem dúvida, vitórias importantíssimas em todos os sentidos. E se foi possível até agora essas ações, com absoluta certeza, virá à vitória total. O problema, como se sabe, não é só o tráfico e a venda de drogas, mas também a corrupção policial que destempera. Todos os setores da sociedade brasileira são atacados, inclusive as artes com os santos das igrejas e museus de peças valiosas. A movimentação constante dos marginais pelas ruas comuns ou por territórios dominados é uma ameaça constante a todas às instituições. A Igreja de Nossa Senhora da Penha de França, apesar de oferecer tanta beleza em Geografia, História e Religiosidade, infelizmente não ficou isenta de ações desvairadas dos cérebros doentios. Fica assim comprometido o turismo naquela área para os que desejam contemplar de perto o monumento. O consolo é mirar as fotos que demonstram as raridades do lugar.
Pontos sagrados ou históricos em outros países, também são alvos de terroristas sob as bandeiras mais diferentes e incríveis. Isso afasta o dinheiro que entra do exterior em forma de visitas. Vários casos já foram registrados tendo como exemplos Egito e Palestina. Confiamos, contudo, que o caso do Rio de Janeiro ou mais cedo ou mais tarde, seja resolvido para que ele volte a sua plenitude. Hoje está uma “desgrama”: na PENHA NEM A SANTA ESCAPA.

OS CATITAS (Cle...

OS CATITAS

OS CATITAS
(Clerisvaldo B. Chagas. 29.10.2009)

bastante tempo, pesquisando para o IBGE, chegamos a um povoado no Alto Sertão de Alagoas, chamado Capiá da Igrejinha. Nem sei se antes ou após a chegada, vimos um riacho correndo que era uma beleza. Tomamos um belo banho, felizes naquelas águas barrentas como os meninos da região. O povoado tinha algumas casas formando um quadrado. Entre as alas falhadas ou não, um vazio enorme. O que chamava a atenção era só uma igreja pequena e bonita, em cuja proximidade, um ou dois frades trabalhavam de enxada. No aperto da fome, paramos na única venda do povoado. O dono, um galego novo e cheio de piadas, parecia levar todo o dinheiro daqueles viventes. Para encher a barriga somente a tão conhecida pela pobreza: “pior sem ela”, enlatada e grudenta. Atacamos com firmeza os pratos com farinha e pouca coisa a mais que nos serviram com aquele tipo de merluza. Quando acabamos a refeição a coisa mais preciosa passou a ser a água, que quase não dava vencimento à salina que engolimos. Rodamos o povoado e fomos até a igreja, mas o frade ou os frades eram de pouca conversa. As lembranças não são muitas, mas parece que o povoado do Município de Canapi, Capiá da Igrejinha, funcionava como uma espécie de estágio para os religiosos. Se os frades eram calados, em compensação surgiu um homem chamado Benjamim que auxiliava por ali e tinha o apelido de Beja. Benjamim parecia ser o intelectual da localidade e nos prestou inúmeras informações. Depois o homem embocou no Velho Testamento e falava quase sem parar. Acertava, errava e prosseguia célere. Achamos interessante quando Beja começou a citar vários povos antigos caprichando na terminação: ita. Amorritas, cassitas, hititas, Catitas e outros mais, segundo ele. Nessas alturas ríamos por dentro. Afinal os catitas que conhecíamos eram os pequenos ratos domésticos Mus musculus. Mas o homem parecia ter bom conceito por ali. Ficamos “inturidos” na seriedade até chegarmos à primeira curva da estrada. Dali em diante, rimos a valer.
Muitos anos depois ouvimos alguém falar que a festa da Divina Pastora, na Igrejinha do Capiá, mandava e desmandava como a melhor da região. Foi acrescentado ainda que nem era apenas novenário como a maioria das festas de padroeiros. E sim, treze noites que reuniam gente de todo Alto Sertão de Alagoas. Deu-nos uma saudade medonha do Capiá antigo, da igrejinha, do banho no riacho e do camarada Beja. Nunca mais fomos ao Capiá, mas a vontade de revê-lo continua. Como estará agora a terra da Divina Pastora? Continuamos caminhando por cima das boas lembranças, analisando, comparando, formulando conclusões. Passaram os amorritas, os cassitas, os hititas, porém, outras criaturas do mundo continuam vivendo. Em Tóquio, em Santiago, em Paris, em Alagoas, ainda comandam grande parte da sociedade, tanto os gabirus quanto o “baixo clero” dos CATITAS.


QUALQUER COISA SERVE ...

QUALQUER COISA SERVE

QUALQUER COISA SERVE
(Clerisvaldo B. Chagas. 27.10.2009)

Para os que ainda não se acharam

Em tempos idos, no mesmo Conjunto São João em que habitamos, sempre surgiam alguns garotos pobres. Havia uns três ou quatro irmãos pequeninos que me faziam conversar e brincar com eles. Para mim eram três puríssimas criaturinhas que, enviadas de Deus, ajudavam-me a dividir o pão. Isso fazia lembrar sempre a minha piedosa genitora, professora Helena Braga, chamada a mãe da pobreza da Rua Antonio Tavares e adjacências. Quando aquelas famintas e às vezes nuas criancinhas, chegavam à porta, pediam. Em momentos, não tínhamos o que teoricamente elas solicitavam. O maiorzinho dos irmãos, nesse caso, puxava o coro com os outros: “Qualquer coisa serve...” Há bastante tempo àqueles manos desapareceram. Na certa agora são homens que trabalham quem sabe, mesmo perto de nós. As crianças de hoje logo se transformam até por que a vida parece passar rapidamente. Mas nunca apenas ensinamos a elas e, sempre, sempre, aprendemos também.
Quando estamos caminhando na vida, principalmente nas vicissitudes, as lições são maiores do que as do outro lado da moeda. As dificuldades com certeza surgem para que possamos aperfeiçoar o aprendizado na volta ao Criador. Talvez por isso o Cristo tenha falado sobre a dificuldade de um rico entrar no reino dos céus. As lições de vida que são transformadas em sabedoria são de fato dirigidas aos mais simples que rapidamente as aprendem. E assim o homem estuda, trabalha, termina sua universidade e vai passando por diversos estágios. Uns tem sorte (sorte?) e logo se definem na lida com tudo que sonharam. Entretanto, as lições do livro da vida, não os acompanham. Com todo conforto, riqueza, cargos importantes, parecem tão broncos quantos antes. Vão longe os tempos em que nos deleitávamos com as obras de um escritor que conquistava a nossa alma: Humberto de Campos. Homem que parecia entender e transmitir com meiguice suas lições aos pequenos.
Vivemos no ocidente o tal capitalismo. Mas os defeitos de cada segmento econômico, talvez estejam na essência do próprio homem. É possível também que o sumo dos evangelhos, seja desconhecido, mesmo na maioria cristã. Não só os evangelhos, mas livros importantes do Antigo Testamento, ciências para a vida, estão em falta nas instruções cotidianas. Dizia um célebre advogado santanense que pensava saber tudo nas Artes, na História, na Geografia, no Direito... E, por uma felicidade qualquer, ao ler a Bíblia pela primeira vez, levou um choque muito grande por que descobriu que nada sabia. Teria que recomeçar do zero. E sem as ambições desmedidas; sem querer tudo que existe; sem tentar abarcar o mundo com as pernas; vamos colhendo com os simples, com os inocentes, com os verdadeiros iluminados, os emblemas invisíveis dos ensinamentos cristãos. E a humildade muitas vezes se apresenta em primeiro lugar (para os desentendidos sinais de fraqueza), fazendo lembrar as lições das doces criaturinhas que chegavam a nossa casa: “QUALQUER COISA SERVE”.

O CÃO DO POÇO (Clerisvaldo B. Chagas. 27.10.2009) Entre as pessoas bastante conhecidas de Santana do Ipanema, estava o “Maneca”. Maneca era...

O CÃO DO POÇO

O CÃO DO POÇO
(Clerisvaldo B. Chagas. 27.10.2009)

Entre as pessoas bastante conhecidas de Santana do Ipanema, estava o “Maneca”. Maneca era vizinho da loja de meu pai, no lado esquerdo. Depois, desceu e ficou sendo o vizinho da direita, quase defronte ao museu atual. Maneca era um comerciante que nem ria nem era sério demais. Vivia para o seu negócio, um café que também servia de bar. Raramente vi àquele homem fora do estabelecimento ou a caminho de casa. Inúmeras personalidades ficavam horas conversando diante da loja de meu pai, menos o Maneca que vivia exclusivamente para o seu trabalho. Ali era ponto de inúmeras pessoas da freguesia, lugar certo para um café ou uma cerveja em relação aos que visitavam a cidade. Certa vez eu vi o Maneca chegar à porta da loja de meu pai e parabenizá-lo pela aprovação de primeira do meu irmão mais em velho no vestibular de Medicina. Daí em diante Maneca subiu muito em meu conceito. Dizem que de vez em quando, o comerciante bebia alguma coisa. Bem, nunca notei nada nessas transições, mas dizem que ele agia diferente. Maneca já foi motivo de crônicas de outras pessoas. Vão dois exemplos inéditos: um sujeito foi comprar cigarros e ele disse que não tinha. O homem insistiu apontando os maços do produto na prateleira. Maneca fez ouvidos de mercador: “Eu já disse que não tem”. Quando um dono de farmácia sentou à mesa e pediu um bolo, Maneca trouxe o bolo inteiro, colocou-o no prato do professor Alberto Agra e retirou-se calado. Surpreso e indagando o que era aquilo, Alberto teve como rápida resposta: “o bolo que você pediu”.
Recentemente tinha havido alguns casos de assombrações na cidade vizinha de Poço das Trincheiras. Muita gente saía de Santana e da redondeza para ir testemunhar os fenômenos. Depois logo botaram o apelido das coisas de “Cão do Poço”. Lá mais na frente, Maneca arranjou um empregado para servir cafezinhos. Branco, alto, boca grande, cabelo agastado, o servente originário do Poço das Trincheiras, logo recebeu o apelido de “Cão do Poço”. Um pouco bronco, mas gente boa, servidor e bem humorado. “Cão do Poço” passou a dormir no lugar do trabalho. Sempre que o patrão fechava o café, as chaves ficavam com o empregado. Mas como foi dito, quando Maneca resolvia beber um drinque mudava alguma coisa.
O Prefeito Ulisses Silva governava Santana pela segunda vez, na primeira metade da década de 60. Uma reforma completa estava sendo feita no centro da cidade, inclusive a substituição do calçamento bruto por paralelepípedos. Defronte ao salão paroquial foi colocada uma montanha de pedras pela caçamba da prefeitura. E naquela noite, ao chegar à hora de fechar, Maneca fez ao contrário do de sempre; mandou “Cão do Poço” sair do estabelecimento, baixou a porta, passou a chave e foi saindo calado. Como o “Cão” não havia entendido, perguntou pelas chaves: “Não dou”. “E onde eu vou dormir Seu Maneca?” E o comerciante ─ economizando palavras ─ apontou o indicador para o monte de pedras, ao lado da Matriz de Senhora Santa Ana e sentenciou a cama de “Cão do Poço”: “Ali”. Coitado do “Cão”... Nem do inferno ele era. Amanheceu dormindo nas mesas de jogo do vizinho Luís Lira. Maneca, homem de bem e muito querido em Santana, também sabia indicar confortáveis camas para O CÃO DO POÇO.

O COTIDIANO DA REALIDADE (Clerisvaldo B. Chagas. 26. 10. 2009) Vamos acabando de chegar do Shopping por volta das 22 horas. A vizinha está ...

O COTIDIANO DA REALIDADE

O COTIDIANO DA REALIDADE
(Clerisvaldo B. Chagas. 26. 10. 2009)

Vamos acabando de chegar do Shopping por volta das 22 horas. A vizinha está na calçada em grande expectativa. Parece excitada com os últimos acontecimentos de rotina da rua. Diz simplesmente ao passarmos: “Estou aguardando a conclusão dos fatos”. Perguntamos surpresos que fatos são esses. E a gordinha explica que acabaram de matar um ladrão ali perto da praça. Mas não é possível? Esse Maceió está quase igual ao Rio de Janeiro. Já ontem mataram dois no bairro da Levada. Mas a vizinha insiste em contar a história novidade. Um ladrão havia roubado uma bicicleta, os populares não quiseram aguardar a polícia e fizeram justiça com as próprias mãos. O gatuno está sem vida lá na praça para quem quiser ver. Mas a gordinha ainda diz que chegou a segunda notícia: O roubo não teria sido de uma bicicleta, mas sim de apenas uma torneira. Para que o ladrão queria uma torneira? Ora, um objeto assim é muito útil em casa. Mas talvez tenha sido para vender e comprar drogas com o dinheiro. Hoje se rouba as coisas mais incríveis como sombrinhas, tênis, litros, latas velhas... Tudo serve para adquirir algumas pedras ou uma trouxinha de maconha. Antes de deixarmos à vizinha, ela (nem sei como) tem novas informações: a polícia acaba de chegar ao local. Nós vamos embora e, a gordinha ─ ligada à crônica policial e à rotina do bairro ─ continua à porta farejando a continuação das coisas.
E os rotineiros casos de Maceió continuam enchendo as páginas dos jornais, carbonos dos dias anteriores. É a mulher da garganta possante que passa gritando “feijão verde!” É o aguadeiro com a propaganda da água ou o insistente carrinho de DVDs piratas. Lá na grota mataram mais um. Terrível batida na Fernandes Lima. Nova greve estoura em Alagoas... E assim, sob o forte calor dos trópicos, a capital alagoana vai vivendo entre as obras do comércio e o trânsito doido que engarrafa sempre. A praça grande, outrora tão bonita, agora é dos sem-terras e de outros sem. Vez em quando uma notícia alvissareira que já nasce desconfiada. E aos domingos, praias poluídas, movimento intenso na orla distante e um comércio vazio, esquisito e assustador de tão deserto. Não, ninguém estar falando de pessimismo. Apenas sobre a rotina de uma capital com inúmeros aspectos de interior.
E’ a crônica que conta a história diária de um povo, principalmente no seu aspecto mais simples. Pinturas das ruas; quadros das praças; a “verdade” dos doutores; as “mentiras” das notícias. Muitas vezes ela é insípida como em várias ocasiões falta o sal a própria existência. E se em todas as páginas, sempre aparecem fatos novos, talvez sejam iguais aos que a vizinha tanto aguarda para quebrar O COTIDIANO DA REALIDADE.



GENTE BOA(CONTO) (Clerisvaldo B. Chagas. 22.10.2009) Para a “Dama do Teatro Santanense” (Albertina Agra) e Nilza Marques. Passa...

GENTE BOA (CONTO)

GENTE BOA(CONTO)

(Clerisvaldo B. Chagas. 22.10.2009)

Para a “Dama do Teatro Santanense” (Albertina Agra) e Nilza Marques.


Passava da meia-noite quando a rodoviária esvaziou. Era o último ônibus das trevas e eu não podia perder. Nunca ficamos à vontade em terras estranhas, pois sempre algo diferente parece nos rondar. Para quem gosta, um café; para quem fuma, cigarro. Uma saudade no peito, um amor virtual. Raras pernas passantes pelos corredores longos. Um guarda que namora; um vigia sonolento; estrato de névoa lenta que abraça à rua, que beija a madrugada, que se chega ao de fora. Cochila na porta a cadela branca. E um homem feio do chapéu redondo aperta os passos.


Meu andar parece torto como personagem da “Noite” de Érico Veríssimo. Quero fumar, mas nem fumo. Relanceio a noite preguiçosa, com seus pontos brancos, navegando na branca névoa. Já vou procurando alívio no mictório adormecido. Ali tem um homem, é o dono da roleta que nem abre a boca. Minha perna bate e vence a resistência da roleta solta. Por que está ali uma roleta solta? O baque violento no chão rodoviário parece um grande escândalo que ressoa longe, ecoa além dos corredores vazios. Aguardo a chuva de grosserias, de palavrões, de indecências que certamente serão recrutados. E olho para trás, naquela terra estranha. Pareço levar nos lábios um pedido retinto e amaciado das mais aconchegantes desculpas. A criatura - o dono da roleta que nem era dono - nem meu semblante olha. Retorce o braço e colhe a mão no quadril, quando cita educadamente como um ser divino: “Nem ligue!” Não vi mulher, não vi homem, não vi gay. Vi uma pessoa que me deixou muito feliz, aliviando uma tensão, para mim enorme, em terras alheias. Fui impressionado ao mictório. Na volta agradeci à gentileza, saí nos passos tortos da novela. Percorri sozinho o corredor solitário. A pessoa ficou lá, cumprindo o seu dever àquela hora com todo bom humor e educação que Deus lhe deu. Deixei à luz, fui ver à noite de perto. Furar a escuridão, a névoa, o destino... Aguardando máquina enorme de carregar gente. E chegou uma quentura muito agradável. A porta abriu e eu embarquei impressionado. Quando as duas estrelas de baixo vararam o breu de Garanhuns, tive a certeza de que se o Eterno semeou coisas ruins, também deixou no mundo muita GENTE BOA.

OS SAFADOS (Clerisvaldo B. Chagas. 21.10.2009) Com o passar do tempo, muitos que fazem da política continuam apostando no leitor Mané. ...

OS SAFADOS

OS SAFADOS

(Clerisvaldo B. Chagas. 21.10.2009)

Com o passar do tempo, muitos que fazem da política continuam apostando no leitor Mané. O analfabeto, o sem entendimento, o desmemoriado, o burro mesmo. Mas eles, os políticos, apostam que a nossa democracia já é bastante sólida e não há perigo algum de voltar aos tempos dos ditadores militares. Homens e mulheres que vieram de uma linhagem nova de lideranças, após os anos de chumbo, ganharam a confiança cega dos eleitores cansados de tantas imundícies. Hoje são esses mesmos, essas mesmas, que entram de peito aberto nos entendimentos das falcatruas, numa tentativa desesperada de não mais saírem do poder. É uma nova camarilha nojenta que desonra qualquer eleitor ou país sério do mundo. Tanto faz dizer que tudo começa de baixo para cima como de cima para baixo. Ficamos estarrecidos, decepcionados e incrédulos vendo o seriado da safadeza dos cupins dos poderes públicos. São os personagens municipais, estaduais e federais, que se fossem na Cuba de antigamente já estariam todos no El paredon. Não desejamos de forma alguma os tempos da farda de 64. Mas ficamos sem entender o silêncio das forças armadas, diante de tanta infâmia no cenário cafajeste da bandidagem do colarinho branco. Se formos citar os safados que perderam o nosso respeito, seria uma longa lista, que vai de candidato a prefeito, a governador, a presidente, a deputado e por aí afora. Quando não são as tramas escandalosas que atentam contra o cidadão tipo precatório, são manobras escabrosas e palavras de estábulos semelhantes a do eterno maloqueiro Maradona. Antigamente pelo menos havia ainda alguma camada de pau, hoje, mas nem isso; substituíram a camada pelo cara-de-pau. Até um metido a muito sério de Brasília desfila de cueca vermelha querendo ser rapazinho e engraçado. Vivemos no Brasil, no palco dos atores intocáveis, as comédias “bufonas”, as chanchadas de Zé Trindad, as porcarias das bocas de famosos apresentadores de televisão. Além das coisas boas, vivemos também no país do cocô, onde não se respeita mais ninguém.
Em 2010 não vai aparecer nenhuma novidade. São os mesmos. País, do município ao todo, os mesmo caras, as mesmas caras, os mesmos discursos, os mesmos truques, as mesmas pancadas. Ai do honesto e novato que for se meter no balaio de gatos! Não dá mais para aguentar esse território repleto de tantos canalhas que apontam com os dedos imundos para os drogados, os assaltantes comuns, os pedófilos ou os ladrões de galinhas. Entendemos porque muitos jornalistas de verdade e de vergonha, cansam e se calam, porque não encontram mais ecos em suas palavras vigorosas. E o império brasileiro vai virando império romano, na corrupção generalizada, no dinheiro, na boca porca, no roubo dos inocentes, nas cuecas podres de dólares e de sujeira, no mensalinho, no mensalão, no boizinho, no castelo, na empreiteira, na taturana... No avacalhamento. E o pau forte da gota serena, madeira de dá em doido, vai quebrando nas costas maleáveis do funcionário público, da pobreza brasileira. Vivemos a geração perversa dos homens do colarinho branco. A geração dos SAFADOS.

TEMA EM MARTELO AGALOPADO (Clerisvaldo B. Chagas. 20.10.2009) Um beijo escondido e matador Faz o mole virar-se em Lampião Quan...

TEMA EM MARTELO AGALOPADO

TEMA EM MARTELO AGALOPADO

(Clerisvaldo B. Chagas. 20.10.2009)


Um beijo escondido e matador

Faz o mole virar-se em Lampião


Quando o homem é maluco pela dona

Quando a dona é mais doida pelo tal

Sobe um fogo por dentro do canal

Rompe amor à paixão que tudo abona

O recato dos peitos é quem detona

Abre as asas no tiro campeão

Junta à língua o fator da gustação

Vibra o sangue escoiceia o domador

Um beijo escondido e matador

Faz o mole virar-se em Lampião


No silêncio do velho apartamento

O corpanzil revive a geringonça

Na floresta a gostosa vira onça

Nas carícias do homem mais sedento

Na soleira, na neve ou ao relento

Não há força que dome uma paixão

As correntes que prendem o coração

Jogam longe a ferrugem feia cor

Um beijo escondido e matador

Faz o mole virar-se em Lampião


No calor da saga nordestina

Os lábios são da cor de melancia

Se carnudos são fontes de poesia

Assassinos desenhos de uma sina

São armas infalíveis de menina

Molhadas das fontes do sertão

Se o poeta sofrer dessa paixão

Como eu que não fico sem amor

Um beijo escondido e matador

Faz o mole virar-se em Lampião


Os mais brancos lençóis em desalinhos

E um vulcão por dentro da ternura

Na voz embargada, uma tontura

Aromas de taças e de vinhos

Cerejas, batons, choros de pinhos

Violetas no jarro de latão

Suspiros de ais em gratidão

Muitas veias rotundas de calor

Um beijo escondido e matador

Faz o mole virar-se em Lampião

FRUTA MADURA E LULA (Clerisvaldo B. Chagas. 19.10.2009) “ Laranja madura na beira da estrada, ou estar bichada, Zé, ou tem maribon-do no pé...

FRUTA MADURA E LULA

FRUTA MADURA E LULA
(Clerisvaldo B. Chagas. 19.10.2009)

Laranja madura na beira da estrada, ou estar bichada, Zé, ou tem maribon-do no pé”. É assim que o povo fala e canta quando vê muita facilidade. So-mente quem não acompanha as transformações do mundo segue a vida paca-ta da cidade pequena. Sequer vê o tempo passar. As transformações que ocor-reram no mundo após a queda do muro de Berlim, nunca mais pararam e nem vai parar tão cedo. O bipolarismo deu lugar ao dono do mundo, o império ame-ricano, comprador de todas as bodegas do planeta. Foi preciso aparecer essa tal crise para que o gigante sedento parasse um pouco a sua investida e con-templasse por aí os estragos das besteiras. Obama veio sim como uma grande esperança, não só americana, mas planetária. Entretanto, parece que o ho-mem tão esperado ainda não se reencontrou totalmente, talvez, devido às po-derosas pressões das velhas hierarquias bestas do seu próprio país. Todas as nações invadidas pelos americanos sofrem o impacto, mas depois reagem e tornam-se invencíveis. Já discutíamos isso quando adolescentes: Entrar é fácil, difícil é sair. Quantos americanos já morreram no Vietnam, no Iraque, no Afe-ganistão? Em nenhum ganhou a guerra. É por isso que Obama ou volta ao passado para seguir a trilha de sangue de Bush, ou luta contra os poderosos do seu país, fazedores de guerra. Está o presidente tão preocupado com a sua própria imagem, que parece não ver a queda de outros muros como o seu próprio império, a moral da OEA, da ONU e do G7.
Foi por isso que o presidente Luís Inácio disse que a ONU é uma fruta ma-dura. Amadureceu, passou do ponto e cairá, como caiu o G7. Porque não tem mais moral para ordenar coisa alguma, já que a Águia americana é na verdade a própria ONU. Os Estados Unidos fazem o que querem, tem a ONU apenas para oficializar as suas vontades. É por isso que ainda reluta em ampliar e forti-ficar o Conselho, velho, podre, carcomido do tempo da II Guerra Mundial. Co-mo todos os outros países querem, ou a ONU entra em reforma ou muita coisa feia ainda vai acontecer. Esse negócio de conselho rotativo é coisa para boi dormir. Ou Conselho Permanente ou nada. Eles, os do Norte, ainda não abri-ram os olhos. O mundo com um Brasil forte, a Índia e a China, no primeiro pa-tamar, tudo muda. Não adianta americano espernear. Todos os impérios caí-ram como já foi dito aqui. Mais um é questão de tempo. Quando o Lula, esta-dista ou não, diz que a fruta está madura, pelo menos é o primeiro homem do mundo a reunir coragem para afirmar isso. Ele vê como eu vejo como os que não são cegos veem. O mundo não é mais o mesmo, uma nova ordem está sendo construída, mas tem certas arrogâncias que são tão comodistas que não enxergam o óbvio. Estão nos tronos de marfim cercados de teias de aranhas que impedem à luz solar. Mais uma vez o presidente brasileiro sai à frente nu-ma afirmação planetária de tão grande importância. A OEA E A ONU passaram a ser laranja de beira de estrada. É aprendendo na agricultura e na política A FRUTA MADURA E LULA.

CACHAÇA NO QUENGO (Clerisvaldo B. Chagas. 16.10.2009) Para os professores apologistas do folclore nordestino: Valter Alves, Fábio C...

CACHAÇA NO QUENGO

CACHAÇA NO QUENGO

(Clerisvaldo B. Chagas. 16.10.2009)

Para os professores apologistas do folclore nordestino: Valter Alves, Fábio Campos mais João de Oniel e Cecéu.

Entre os folguedos do estado alagoano, avulta-se o Guerreiro. Dependendo de inúmeras coisas, cada grupo pode variar entre 25 e 64 figurantes. O Guerreiro, com roupas vermelhas e azuis entre fitas coloridas, chapéus e espelhos, comemora o nascimento do Cristo, daí o surgimento quase sempre em época natalina. Alguns pesquisadores atribuem à origem do Guerreiro, vinda de uma dissidência do Reisado, sendo mais leve e ocupando menos pessoas. Esse folguedo teria aparecido entre as décadas de 20 e 30 do século passado. Chamam a atenção no Guerreiro, o colorido das suas vestes, as belas mocinhas que são chamadas “figuras”, o ritmo agradável, os improvisos do Mestre, também chamados de “embaixadas” e as brincadeiras dos Mateus. De qualquer forma, não cabem neste trabalho os detalhes sobre esse maravilhoso folguedo. Queremos chamar atenção apenas para a beleza dos versos de mestres talentosos. Muitos poetas célebres de Reisados e Guerreiros ainda continuam imortais em Alagoas. Algumas estrofes tornaram-se clássicas alagoanas como as seguintes:

“Ô minha gente...

Dinheiro só de papé

Carinho só de mulé

Capitá só Maceió...”

“Se eu me casar

Com mulé feia demais

O diabo é quem não faz

Todo dia ela chorar...”

Lembro da Expedita, mulherona branca e formosa chegada ao Guerreiro; era empregada na casa de meu pai. (Por onde andará a Expedita?). Gostava de cantar para mim no balançar da rede (inclusive, a estrofe abaixo foi parar em um dos meus romances):

“O avião subiu

Se alevantou

No ar

se peneirou

Pegou fogo e levou fim...”

Pois bem, deixando tantos versos bonitos de lado, resolvemos contar um caso de Guerreiro que se passou na zona rural de Penedo, segundo o subtenente Eurípedes (In memoriam). Convidado para brincar no aniversário de um fazendeiro, o grupo folclórico apresentou-se e começou a dançar até a meia-noite. O mestre era bom, tirava versos a valer e, as figuras faziam sucesso absoluto. Mas acontece que ninguém é de ferro e o mestre do guerreiro já começava a enrolar a língua pela força da “marvada”. Foi aí que alguém interferiu, dizendo ao mestre que ele já havia falado em tudo menos elogiado o dono da casa e a sua senhora. O mestre, surpreendido, arregalou os olhos e perguntou o nome do fazendeiro: “Seu Artur”. E o da dona da casa: “Dona Enedina”. E o nome da fazenda: “fazenda Urucu”. O mestre não se fez de rogado e bem que tentou uma quadrinha, mas se engrolou todo no nome da fazenda de rima parecida:

“Ô Seu Artur...

Ô dona Enedina...

Ô peça fina

Na fazenda deram o c...

Depois de a capangada quebrar tudo no cacete, dizem que o mestre do guerreiro ainda hoje corre. Alguém perguntou o que era aquilo. Outro respondeu cuspindo longe: CACHAÇA NO QUENGO!