CHAPÉU DE COURO (Clerisvaldo B. Chagas. 20.4.2010) PARA LUIZ ANTONIO “CAPIÁ” E SEUS FAMILIARES Artefato para proteger a cabeça contra sol, ...

CHAPÉU DE COURO

CHAPÉU DE COURO
(Clerisvaldo B. Chagas. 20.4.2010)
PARA LUIZ ANTONIO “CAPIÁ” E SEUS FAMILIARES
Artefato para proteger a cabeça contra sol, chuva, frio, sereno e espinhos da caatinga. O chapéu de couro também ditou moda no Sertão. Para ser valorizado tem que ser bem feito, flexível, de couro de veado ou bode. Os vaqueiros usavam-no contra as cactáceas dos intrincados e pontas de paus que formam armadilhas na flora. Enfrentar o boi selvagem, o barbatão do casco grosso e chifres afiados exigiam perícia do caboclo perseguidor. Dentro das faveleiras, mandacarus, rasga-beiços, facheiros, unhas-de-gato e semelhantes perigosos, somente portando chapéu de couro com testeira e barbicacho. Chapéu de couro peça genuinamente nordestina que simbolizou o ciclo do gado nas conquistas sertanejas. Grutilhões assombrosos, chapadas deslumbrantes, vales ajardinados, tabuleiros infindáveis, sentiram as narinas dos cavalos crioulos e seus cavaleiros voadores.
Já os cangaceiros deram preferência ao chapéu, mas com abas grandes, enfeitado, quebrado na frente e atrás. Os tangedores de Alagoas preferiam o de abas médias com apenas a traseira levantada e presilhada. Os vaqueiros baianos e piauienses usavam-no com abas grandes amassadas e frente bicuda. Os pernambucanos inventaram, por último, o chapéu quase sem aba, mais desenhado, deixando-o quase como uma cuia. Ridículo no cabra de cabeça grande. Os aboiadores que gravam CDs aderiram à moda. Enfim, muito se poderia falar dessa peça que completa a vestimenta de couro do matuto.
Segundo o sargento Eduardo (In Memorian) que participou da empreitada de Angicos, o major Lucena tinha ojeriza a homem de chapéu de couro. Antes de chegar ao Sertão com sua polícia escolhida a dedo, esse bravo comandante reuniu a tropa e ordenou mais ou menos por aqui assim: “Daqui em diante, todo cabra encontrado com chapéu de couro entra na madeira”. Foi aí ─ ainda segundo o sargento reformado ─ que alguém interferiu. Não se podiam aplicar surras em todo homem de chapéu de couro porque nem todos eram coiteiros de Lampião. Usar esse tipo de chapéu era costume arraigado da terra. O major ouviu com atenção, acedeu e marchou para Santana do Ipanema, onde instalou seu batalhão de caçar cangaceiros em 1936.
Não faz muito tempo, avistei um cidadão baixinho de barba grande pontuda e chapéu de couro. Pensei indiscreto: Será um profeta dessas novas religiões? Quem sabe, um ermitão das grotas sertanejas! Talvez um divulgador de produtos veterinários ou um simples matador de gente!? Não senhor, não se tratava de nada disso. Ao me aproximar reconheci o ex-bancário Luiz Antonio de Farias, filho de tradicional e decente família de Santana. Agora os amigos tratam o ex-bancário pelo carinhoso apelido de “Capiá”. “Capiá” não se enquadra em nenhum tipo citado acima, mas com certeza representa a continuação em pessoa do ciclo do couro, seu novo visual. Chapéu tradição na cabeça e caneta pesada na web, Luiz vai brindando os internautas. Tenho muita satisfação em ler seus trabalhos cozinhados nas trempes do semi-árido. Sem perder a linha da gramática, encaixa aguardente no lugar de aguardente e, o progresso do mundo coloca debaixo do CHAPÉU DE COURO.



FUMACINHA BESTA (Clerisvaldo B. Chagas. 19.4.2010) Estamo s vivendo ainda esse caos aéreo que deixa os passageiros de aeronaves aborrecidos....

FUMACINHA BESTA

FUMACINHA BESTA
(Clerisvaldo B. Chagas. 19.4.2010)
Estamos vivendo ainda esse caos aéreo que deixa os passageiros de aeronaves aborrecidos. Quem viaja quer viajar. Mas quem é que pode com a Natureza, meu amigo? De repente a Natura resolve quebrar a alegria dos viajantes, exibir o mau humor das companhias aéreas e aplicar um nó de porco no tráfego espacial. E agora? Ah, muitos pensavam que tumultos em aeroportos só aconteciam no Brasil. Estamos vendo que a semente do imprevisto foi semeada no planeta inteiro. Nem adianta encher a boca com orgulho do tal primeiro mundo. Tem até um ditado sertanejo que diz: “Quando Deus não quer, nem peleje”. E assim os caceteiros dos países em desenvolvimento param um pouco a severidade contra nós.
A Islândia, cuja capital e Reiquiavique, estar situada no Atlântico Norte, sendo um dos países mais adiantados do mundo. Em 2007, chegou a ser considerado o mais desenvolvido de todos. Sua Geografia é assim mesmo, diferente de todas. O Centro do país é formado de planalto de areia, montanhas e geleiras. Nas planícies, muitos rios de origens glaciais vão despejar no mar. A Islândia convive com vulcões e é também rica em gêiseres. Os gêiseres servem até de atrações turísticas e, dessas fontes geotérmicas algumas são usadas como fontes de energia elétrica. No século XVIII, aconteceu problema sério por causa de fumaça de vulcão da Islândia que matou pessoas na China e na Europa. Inclusive, muitas morreram de fome em consequência dessas erupções. Portanto, essa não é a primeira vez que um vulcão da Islândia apavora parte do planeta. A fumaça que tomou conta da Europa paralisou foi tudo.
Aqui em Maceió, do outro lado do mundo, a gente vai conversando sobre o assunto na Praça Deodoro. A estátua do nosso cavaleiro Proclamador da República parece desconfortável no centro de tantos maconheiros e cheira colas. É o antigo cartão de visita da capital que vai tombando aos poucos como árvores em final de existência. O outrora abrigo de aposentados vai evidenciando a presença nefasta da escória. A impressão é que as autoridades lavaram definitivamente a consciência no combate às causas dos mostrengos. Isso nos causa uma vergonha enorme quando o turista em alerta aponta com o dedo. Cobertores rotos espichados pelo chão. Restos de comida pelos bancos imundos. Guardas impotentes de farda; guarda débil de máscara (Teatro Deodoro); guarda fraco de livros à mão (Academia de Letras); guarda frágil de balança pênsil (Justiça)... E no meio, bem no meio do palco da vida, o foco do Sol dardejando as cenas degradantes da sociedade luz.
Ouvindo a nossa conversa sobre a fumaça que assola o continente europeu, o maconheiro adolescente ergue-se de um pedaço de lona. Puxa de algum lugar da calça o fumo e o papel. E depois de fazer um cilindro “baseado”, ainda trôpego, risca o fósforo no recheio de folhas, aspira com sofreguidão e mostra que estar ligado à conversa vizinha. Joga dos pulmões o mundo de fumo e rebate a crônica que teimava em não sair: “Tá louco, meu! E as Oropa tá se acabando toda mode essa FUMACINHA BESTA!”




CAPIM DA LAGOA (Clerisvaldo B. Chagas. 16.4.2010) Mal  iniciam os contatos para novas eleições, os viciados vão se apresentando nas rádios ...

CAPIM DA LAGOA

CAPIM DA LAGOA
(Clerisvaldo B. Chagas. 16.4.2010)

Mal iniciam os contatos para novas eleições, os viciados vão se apresentando nas rádios sertanejas, nas praças, nos aglomerados. Eles aguardam os intervalos dos pleitos trabalhando em atividades as mais diversas, mas sempre sonhando com os golpes costumeiros que lhes rendem extras. Nessa época, o viciado inventa qualquer assunto e vai para as rádios denegrir e chamar atenção da cúpula candidata em busca dos míseros dois vinténs. Todos os políticos dos municípios do Sertão conhecem os viciados profissionais. São esses cabras que regulam o mercado clandestino do dinheiro fácil. Muitos desses cambistas possuem tanta confiança em si, que não negociam pacotes. Só fazem negócios separados. Trabalhar para deputado estadual é um preço. Para o federal, “deixe que quando ele me procurar eu acerto com ele”. Contratos para governador e senador, também são coisas à parte. Nesse exemplo, se o viciado conseguir fechar acordo com os quatro candidatos separadamente, poderá comprar um carro, um sítio ou mais algumas cabeças de vacas para aumentar o rebanho.
Quer saber o preço do boi gordo, procure os aglomerados. Quer pesquisar o preço do voto, frequente as praças da cidade. Um suplente de suplente de suplente de vereador falava que deputado fulano o tinha procurado. A resposta foi clara e objetiva: doze mil reais por duzentos votos. O deputado falou que iria pensar. A nova resposta foi: “Pense logo antes que chegue outro”. Ora, se suplente de suplente de suplente já lançou a oferta, quanto custarão os mesmos duzentos votos arranjados por um suplente da vez ou por um vereador famoso em qualquer lugar do semi-árido? Certa vez ouvi um eleitor medonho falando a um candidato a prefeito não aceitar certo viciado em sua equipe. O prefeito respondeu que de fato o sujeito era cabra de peia, mas precisava dele para provocar os adversários. Pelo que se observa ninguém consegue menos de cinco mil reais para “trabalhar” para um político. E quando este cisma em não pagar quando ganha ou quando perde, é um caso sério. O cabra de peia nem denunciar pode.
Em uma rádio do interior, certo juiz dizia que havia dado uma batida durante a madrugada precedente uma eleição, tentando flagrar alguma compra de voto. Ao chegar a determinado lugar, os viciados nem aguardaram a descida dos passageiros. Saíram do mato, sequiosos com as mãos estiradas, coçando os dedos e perguntando nervosos ao juiz: ”Cadê! Trouxe o capim da lagoa?”
Com o nome de “grana”, “dindim”, “mufunfa” e outros da gíria brasileira, o dinheiro do contribuinte vai colocando a cabeça de fora como jabuti em busca de tempo bom. As barrigas continuam famintas, doidas varridas pelo CAPIM DA LAGOA.

MANÉ BOLOLÔ (Clerisvaldo B. Chagas. 14.4.2010) A memória canalizada permanentemente com o passado, mostra as areias do rio Ipanema da antig...

MANÉ BOLOLÔ

MANÉ BOLOLÔ
(Clerisvaldo B. Chagas. 14.4.2010)
A memória canalizada permanentemente com o passado, mostra as areias do rio Ipanema da antiga perfuratriz. A perfuratriz era uma engrenagem dentro de um prédio quadriculado de estilo único, situada a margem esquerda do rio. Dali mandava água para outro prédio situado no Bairro São Pedro, acima, a cerca de quinhentos metros, através de tubulações. Os tubos subiam pela Rua São Paulo até encontrarem o prédio que fomentou o algodão na área sertaneja. Esse prédio que fez história em Santana está sendo devorado pelo tempo. Inclusive com um tanque enferrujado que dizem ter sido do primeiro corpo de bombeiros da cidade. Da antiga perfuratriz ─ que sempre foi ponto de referência em Santana ─ não resta sequer a foto. O seu lugar exato era onde hoje inicia a Rua da Praia. Ali nas imediações as cheias do Panema sempre deixavam bons areados para a prática do futebol. Aos domingos, toda a rapaziada das imediações procurava a perfuratriz para um dia inteiro de pelada.
Como em alegria de brincadeira nunca deixa de aparecer encrenca, certa vez, com os nossos dez ou onze anos, surgiu uma comigo e o meu irmão Erivaldo. Erivaldo não era mole. Sempre foi guerreiro. Mas acontece que havia o Domício, rapagão feito, filho do soldado Joaquim Manoel, vizinho nosso de umas dez casas. Ora, o Domício, para nós, era velho e parrudo. Tinha o apelido de “Domício Grosso”. Por isso ou por aquilo ameaçava nos bater. E naquela preleção de bate, não bate, aproximou-se dele um sujeito que morava à Rua São Paulo, chamado “Mané Bololô” e montou-se às costas de Domício. O pau cantou e, o valentão Domício Grosso levou uma pisa da peste! Houve aplausos para Mané Bololô. Após a surra, Mané ainda recomendou ao Domício passar sempre por longe de nós. Qualquer coisa, por pequena que fosse, queria saber. Não tenho certeza se esses personagens da minha infância ainda vivem. Soube apenas que Domício virou soldado como o pai e trabalhava lá para as bandas de Paulo Afonso. Do nosso anjo da guarda Bololô, nunca mais obtive notícia.
No decorrer das nossas vidas, vamos sempre encontrando valentões como Domício Grosso. Quando não podem bater com braços e mãos, atacam com a língua, infeliz arma dos covardes. Outros ainda usam métodos esdrúxulos como semeadura de pedras e omissão. De qualquer maneira, dizem os espíritas (com outras palavras) que deveremos dar graças a Deus pelas barreiras que nos ajudam à perfeição. Quando tudo parece bem na vida, somos obrigados a enfrentar porcos e cães. Mas a caravana continua sua marcha porque Deus não abandona os dele, assim como teve com Elias, com Eliseu, com Jacó... Os cordatos não buscam vingança, querem apenas justiça. E de vez em quando o Filho do Homem entrega mais um da lista de justiça feita. Quem está no sangue do Pai nunca encontra um Domício Grosso sem que não apareça mais um anjo de guarda MANÉ BOLOLÔ.

GUERREIROS ALAGOANOS (Clerisvaldo B. Chagas. 13.4.2010) Jackson do Pandeiro foi um dos cantores e ritmistas mais apreciados do Brasil. Em J...

GUERREIROS ALAGOANOS

GUERREIROS ALAGOANOS
(Clerisvaldo B. Chagas. 13.4.2010)
Jackson do Pandeiro foi um dos cantores e ritmistas mais apreciados do Brasil. Em Jackson, tudo me impressionava. Pequeno e franzino com apresentação frenética, voz e estilos diferentes, foi um rei em tudo o que fez e criou. Era admirado por Luiz Gonzaga e saiu influenciando gerações. Além do ritmo gostoso e contagiante, o artista surpreendia também na vida fora dos palcos, basta lembrarem o modo ímpar como conquistou o primeiro casamento. Os sucessos extraordinários do homem da Paraíba estavam no cotidiano; no forró de algum lugar, na passagem do amolador, no ninho da ave casaca-de-couro... Enfim, era um descobridor das coisas simples do dia-a-dia. Essa simplicidade que entrava pelos nervos, virava matéria-prima para os belos ritmos que encantavam multidões. Mas não pretendemos falar sobre Jackson do Pandeiro nem da dimensão que ele ocupou e ocupa entre os músicos brasileiros. Destacamos apenas uma das suas estrofes quando o assunto cortava o espaço:

“Avião, papai,
Avião, papai,
É bonito quando voa
Mas é feio quando cai...”

A queda do avião polonês que matou mais de noventa pessoas, entre elas o presidente da Polônia e esposa, causou consternação naquele país, na Europa e no mundo. A Polônia, situada no centro da Europa, tem milhares de episódios para contar. Pela sua posição estratégica, sempre foi alvo de atropelos por tropas estrangeiras como as da Alemanha nazista e União Soviética. O povo polonês sempre defendeu seu território com denodo, além de ser gente civilizada e de altivez. Na vitória ou na derrota surpreendeu o mundo pela bravura patriótica apresentada. Acertou o presidente brasileiro quando decretou luto de três dias pela tragédia que vitimou quase uma centena de pessoas. A esse desastre aéreo vão somando-se outros que tantas dores causaram deixando famílias em desespero. Foi um dia muito difícil para Varsóvia e o restante da Polônia.
É divina também a arte brasileira que se aproveita de tudo para construir. É a charge, a piada, a música, a peça teatral. Os cordelistas farejam fatos novos e lançam folhetos de qualquer gênero como desenrolar de acontecidos em primeira mão. O folclore, sempre mais lento por causa das suas apresentações esporádicas, também marca presença nas tragédias. Registramos assim a bela estrofe de Jackson, no início deste trabalho e apresentamos no fim, outra belíssima de grupo folclórico de guerreiro sobre o mesmo tema. É a toada do mestre seguida pelas figuras componentes:

“O avião subiu
Se alevantou
No ar se peneirou
Pegou fogo e levou fim...”

Dessa forma, todas as tragédias aéreas do mundo estão na música de Jackson do Pandeiro e em grupos de GUERREIROS ALAGOANOS

CABEÇA DE BURRO (Clerisvaldo B. Chagas. 12.4.2010) Somente aqueles que viveram e lutaram na época pelo asfalto Palmeira dos Índios─Santana ...

CABEÇA DE BURRO

CABEÇA DE BURRO
(Clerisvaldo B. Chagas. 12.4.2010)
Somente aqueles que viveram e lutaram na época pelo asfalto Palmeira dos Índios─Santana do Ipanema, sabem como foram os combates contínuos e ferozes. Com a chamada rodagem da BR-316 completamente desgastada, foi necessário uma mobilização sertaneja que sensibilizasse as autoridades federais. Era um privilégio sem limite o asfalto Palmeira─Maceió, inaugurado no governo Arnon de Mello. Veja a evolução do transporte em Alagoas.
Para chegar a Maceió, o sertanejo saia a cavalo até Pão de Açúcar e fazia o restante do trajeto pelas águas do rio São Francisco e pelo mar. Com a chegada da via férrea em Alagoas, o homem do Sertão, deixou o rio. Passou a viajar a cavalo até a ponta dos trilhos e dali embarcava na engrenagem até a capital. O espaço foi encurtando a medida que o trem ia chegando mais perto. Primeiro, Viçosa, depois Quebrangulo e por último, Palmeira dos Índios. Quer dizer, o cavalo e o trem foram importantes para os sertanejos do estado. Mas com o surgimento dos primeiros caminhões e com a rodagem, Palmeira─Delmiro, a evolução desde o início foi extraordinária. O deslocamento até Palmeira passou a ser em caminhões, automóveis ou “sopas”, depois. Quando chegou o asfalto a Palmeira dos Índios, foi outro grande salto para o Sertão. Mas nessas alturas, de Cacimbinhas a Delmiro ninguém mais se conformava em comer poeira até a “Princesa do Sertão” e continuar na maciez civilizada do asfalto palmeirense. A estrada chegou a não ter mais consertos com suas máquinas pesadas. Santana reagiu duramente, porém, as batalhas da sociedade com o poder público durou décadas de suor e frustrações. Os mais experientes diziam: “Parece que alguém enterrou uma cabeça de burro na rodagem entre Palmeira e Santana”. Nenhuma força de gigante era capaz de trazer o asfalto à terra da avó do Cristo. Mas um dia, um dia de tão cansada luta que nem teve entusiasmo para comemorar, chegou “Zé Pretinho”. Mais um sonho realizado, morno como café de ontem, porém com muita serventia.
Quando lemos nos jornais impressos e virtuais outros embates do alto Sertão pelo restante do asfalto da BR-316, lembramos do que sofremos na pele. Mata Grande, pequena, bela e peculiar cidade serrana, precisa mais de que nunca desse asfalto que bem poderia chegar até ao solo pernambucano. Cidade da rapadura, mel de engenho... Com relevo montanhoso e um dos melhores pequenos climas de Alagoas, Mata Grande tem história de mando no estado, episódios lampionescos e grandes tradições. Àquelas terras Santana já pertenceu duas vezes como comarca. Suas ruas de traçados transversais, a imponência da igreja, as histórias da cadeia velha e a tradição de belas mulheres, fazem de Mata Grande uma cidade curiosa que precisa ser visitada.
Desejamos de coração que ações em busca do asfalto da BR-316 tenham coroamento. Nem importa a proximidade das eleições. O que vale de fato é luta e reza forte para ─ definitivamente ─ ser localizada, cavada e desenterrada a tenebrosa CABEÇA DE BURRO.


DETALHES DA HISTÓRIA (Clerisvaldo B. Chagas. 9.4.2010) É com imensa satisfação que comemoramos esta crônica de número 250. A maior parte de...

DETALHES DA HISTÓRIA

DETALHES DA HISTÓRIA
(Clerisvaldo B. Chagas. 9.4.2010)
É com imensa satisfação que comemoramos esta crônica de número 250. A maior parte desses trabalhos foi apresentada no Portal Santana Oxente, acrescentados também no blog do autor e no Portal Maltanet. São 250 trabalhos divididos em CDs de apenas 50 crônicas que poderão ser transformadas em livros depois de selecionadas. Os mais diferentes assuntos caracterizam a versatilidade de quem as escreveu. Nunca ninguém em fase alguma exaltou tanto a sua terra como o escritor Clerisvaldo. Nos romances, no conto, no paradidático, na História... Nas crônicas e poesias. As crônicas falam para o mundo, mas com certeza se houver uma seleção destacando as que exaltam a terra, darão um livro de história de Santana com vários nuances. Modéstia à parte, o autor merece nome de bairro em Santana, pois nome de escolas e ruas está cheias de escritores que abandonaram a terra e sumiram. Foram desencavados por padrinhos do poder. É hora de saber quem ficou batalhando na trincheira santanense sozinho e até agora. E para comemorar o número do marco, vamos mais uma vez nos voltar para Oscar Silva.
Não me lembro de nenhum tombamento de prédios públicos ou particulares em Santana do Ipanema. Aliás, tombamento em Santana é queda mesmo. Quando se juntam descaso, indiferença e ignorância, o resultado é óbvio.
Fui o primeiro escritor santanense a tirar Oscar Silva do esquecimento e apresentá-lo a essa juventude. E para aqueles que gostam de detalhes, resolvi acrescentar algo sobre à casa de Oscar Silva pois ele mesmo foi o primeiro a não se envergonhar do lugar em que habitou. Fora a flandreleira “Zifina”, sua avó (já falei sobre ela nessa coleção de 250 crônicas), conheci como segundo proprietário daquela casa trepada no barranco defronte a de meu pai, um casal da qual a mulher era macumbeira. Ser macumbeiro naquela década de 50 não era fácil. Por isso ou por aquilo, principalmente por causa da língua, a tal mulher terminou levando tremenda surra de chibata de bater em cavalo. Foram os autores o senhor José Urbano (morador defronte) e Antonio Néris, marceneiro, vizinho da mulher, apenas separados por uma casa. A macumbeira não amanheceu o dia em Santana. Depois, lembro que a casa foi ocupada por Antonio Porqueiro, conhecido assim porque matava e vendia porcos. Gente boa. Dessa família simpática destaco três dos filhos de Antonio. “Julinho”, que jogava peladas nas areias do Ipanema. Só jogava sorrindo e aplicando sucessivos dribles curtíssimos nos adversários. Jamais vi coisa igual. Francisco, o mais velho, moreno, forte (parecia um mexicano) terminou envolvendo-se em coisas pesadas lá para as bandas de Maceió. Coisas que os santanenses custavam a acreditar. E “Zé Porquinho”, novo, simpático, parece que a ele o futuro mostrou o mesmo caminho de Francisco. Desintegrou-se a família do compadre de meu pai. A casa passou muito tempo fechada e depois foi adquirida pelo senhor José Urbano e esposa “Florzinha”; demolida, faz parte agora do quintal vizinho. Sobre à casa do meu escritor santanense predileto, está aí para quem gosta de DETALHES DA HISTÓRIA.

CANTANDO A BOLA (Clerisvaldo B. Chagas. 8.4.2010) Quem aprecia um bom jogo de sinuca conhece. É uma expressão usada pelo amador eufórico com...

CANTANDO À BOLA

CANTANDO A BOLA
(Clerisvaldo B. Chagas. 8.4.2010)
Quem aprecia um bom jogo de sinuca conhece. É uma expressão usada pelo amador eufórico com a própria habilidade: “Cantar a bola”. Cantar a bola é dizer logo o que fará na próxima jogada: “Vou encestar a bola da vez, de puxada; pego depois a bola ‘y’ e logo darei uma sinuca por trás da bola ‘x’ que está em boa posição”. Não precisa o leitor entender essa linguagem, basta saber que o amador cantou a jogada (disse o que iria fazer). O profissional não canta jogada; faz tudo calado, mesmo você prevendo o que ele realizará.
Vamos para uma explicação didática sobre motivos do que estar acontecendo no Rio de Janeiro. O caso do Rio encontra-se dividido basicamente em ações da natureza e ações do homem. Quanto às ações da natureza:
1. Somos um país de maior parte tropical. Isso quer dizer que estamos entre os trópicos. O Brasil possui quase todo o seu território entre a Linha do Equador e o Trópico de Capricórnio. Significa dizer que estamos sujeitos às chuvas durante as quatro estações do ano.
2. A posição geográfica do Rio de Janeiro espremido entre mar e montanhas, apresentando lagoas, rios, córregos e canais.
A natureza não tem culpa de nada. Os inúmeros acidentes geográficos são belíssimos e mexem com o orgulho do povo carioca. Atraindo pelas belas paisagens e ações humanas, esse paraíso logo passou a ser densamente povoado. Em não havendo mais lugares seguros disponíveis, áreas de riscos começaram a receber moradores cada vez mais em grande quantidade: margens de rios, mangues, encostas, lombos de morros isolados e parte superior de montanhas com vegetação nativa. Entre as ações humanas que levaram a essa calamidade estão:
1. O asfalto. Parte das chuvas que antes se infiltravam no solo, com a cobertura asfáltica passou a escorrer pela superfície.
2. Lixo urbano. O lixo, jogado pelo povo em todos os lugares: nas ruas, praças, quintais, córregos... Forma uma barreira em pequenos e grandes esgotos impedindo a passagem da água. A essas barreiras, outra é formada pela maré alta, que impede a entrada das águas pluviais no mar. Forma-se assim um ciclo fechado, sem saída para as águas e para o alívio da população. Com o ciclo fechado, mais chuva, principalmente em volume inesperado para um tempo curto.
3. Desmatamento. O desmatamento provocado pela ocupação desordenada nas encostas e no cimo dos morros deixa a terra desnuda que não resiste à pancada de chuva e as enxurradas violentas. O solo desliza e desce junto com as águas levando tudo de roldão.
Chuvas fortes, tempestades, queda de temperatura, completam o restante do inferno. Os que cantaram a bola não tiveram taco suficiente para realizar grandes jogadas de prevenção. A natureza ainda corre muito à frente e as providências atrás. Uma viaja de avião e as outras em lombos de jumentos. As tragédias cantadas continuarão a acontecer, infelizmente, enquanto houver essa mentalidade inebriante de amador. É fácil iniciar CANTANDO A BOLA.




DESARMAR ESPÍRITOS (Clerisvaldo B. Chagas. 7.4.2010) Faz muito bem o senhor Barack Obama em repensar as armas atômicas. Com a infeliz ideia...

DESARMAR ESPÍRITOS

DESARMAR ESPÍRITOS
(Clerisvaldo B. Chagas. 7.4.2010)
Faz muito bem o senhor Barack Obama em repensar as armas atômicas. Com a infeliz ideia e sem precisão alguma foi jogada a primeira bomba em Hiroshima. Os americanos dizem como desculpa que foi para apressar a paz e evitar mais mortes em ambos os lados. As duas hecatombes que aconteceram nas duas cidades japonesas são apenas parte do cinismo e bestialidade humanas. Palmas e palmas para os fabricantes de armas, glórias para o espírito destruidor, respeito medroso para os possuidores de artefatos. Entrevistado, o piloto que jogou as bombas sobre o Japão diz não ter se arrependido e orgulha-se de ser pau-mandado do comando. É o instinto carniceiro aliado a um patriotismo zambeta que instiga a ferocidade. Outras nações, para não ficarem em desvantagem e meter medo nos outros mortais, também partiram para a estupidez que em nada de bom acrescenta ao mundo. Assim é que, além dos Estados Unidos, possuem armas nucleares a Rússia, Ucrânia, Reino Unido, França, China, Paquistão, Índia, Israel e Coreia do Norte. É de se notar entre os privilegiados que fazem parte do clube, os cinco do Conselho Permanente de Segurança da ONU. Eles se respeitam entre si por que cachorro grande não briga com semelhante. Prefere farejar o traseiro e urinar no poste imediato. Cuidado deve ter cachorro pequeno, alvo fácil dos dentes afiados dos raçudos.
Eliminar armas atômicas é melhor de que qualquer outra coisa, mesmo sendo consideradas obsoletas em comparação com o avanço destruidor do momento. Todos estão cansados de saber que uma guerra atômica não deixará vencedores. Será o fim total do gênero humano no Planeta. Mas, por que, então, continuar com essa ameaça no fundo do quintal? Somente o que sonda o homem por dentro e por fora sabe a resposta verdadeira. A iniciativa, portanto, do presidente Obama, representa certo alívio para os terráqueos, mas não deixará de enraivecer os radicais vampirescos que atuam às sombras tenebrosas.
Se os arsenais de hoje só precisam de um louco para apertar o botão, por que deixar mais um maluco como o senhor Ahmadinejad fazer parte do “Clube do Bolinha”? Caro Barack, o senhor foi eleito porque representava o novo; uma esperança de tempos mais venturosos para o povo americano e para o mundo inteiro. Ser a maior potência, também implica em maior responsabilidade. Será que o senhor vai conseguir resgatar um sonho de paz duradoura para esse planeta conturbado? Não é fácil segurar o leme do barco mais poderoso da Terra. Exercer o cargo de presidente americano deve ser um exercício permanente de meditação. É como diz a música: “Os meus problemas são meus/ Deixem comigo a solução (...). Na hora de decidir como resolver questões, só quem sabe é a cabeça de quem pensa. Sobre os depósitos de armas existentes, é fácil derretê-los, difícil mesmo é DESARMAR ESPÍRITOS.

SANTOS DE ALAGOAS (Clerisvaldo B. Chagas. 6.4.2010) São diversos os santos introduzidos no Brasil pelos portugueses. Muitos se tornaram ver...

SANTOS DE ALAGOAS

SANTOS DE ALAGOAS
(Clerisvaldo B. Chagas. 6.4.2010)
São diversos os santos introduzidos no Brasil pelos portugueses. Muitos se tornaram verdadeiros guias espirituais, adquirindo milhões de devotos seguidores. Esses são os mais conhecidos e não existe cidade grande ou lugarejo que não tenha alguma coisa com o nome do santo. Casas comerciais estão cheias de denominações divinas numa evocação sincera ou não que mostram os pendores do cristão. Colocar nome de santo no estabelecimento é acreditar na ajuda que vem do céu para seus negócios, muitas vezes até escusos na Terra. Todavia, é como se o santo não visse as falhas, os defeitos, os pecados, os roubos escancarados e continuasse protegendo o infrator devoto. O povo nordestino anda com muitos santos no bornal e apela para todos conforme seja a natureza dos seus reclamos. Caminhos que cortam a caatinga, o agreste, mangue e floresta, acham-se repletos de sinais que levam ao transcendental. A boca ainda reina como lugar preferido para abrigar o monte, porque dificilmente esse monte é conduzido ao coração. Pronunciar denominações de seres encantados é como reflexo disponível a qualquer momento em qualquer lugar. Mesmo os últimos destaques do Nordeste não canonizados ainda, tem o espaço em logradouros públicos e casas de negócios, ainda que sejam somente para atraírem a clientela e nada mais. Afinal, as forças que muitos nomes proporcionam, parecem ser a chave do sucesso que erguem pobres e ricos na concorrência da vida.
Entre os santos mais apreciados, com raízes seculares na região nordestina, estão, São José, São João e Santo Antonio. Esses ajudam na escolha dos nomes dos que nascem nessas bandas e os nomes escolhidos cooperam com a devoção da entidade correspondente. Sem conta são os motivos que levam a escolha do nome filial. Tirando os campeões citados, outros santos também tem lugares garantidos como Santa Luzia, protetora dos olhos; São Brás que toma conta da garganta e assim por diante. São comuns ainda as homenagens a Frei Damião e ao Padre Cícero, em praças, botequins, bazares, armazéns, marcas de velas, fogos de artifícios e até em simples carrinhos de balas doces de ambulantes pelas feiras. Essa simbiose cristã vai solidificando a maneira de ser do caboclo que precisa de uma proteção real contra as dores e injustiças reinantes nesse território causticante. Sempre se precisa mesmo de alguma coisa sobrenatural pelo menos para acreditar.
Para os que gostam de expandir a segurança divinal, boas novidades se apresentam. Começa a revoada de novos santos (santos, não candidatos a santo) em Santana do Ipanema e em outras cidades do interior de Alagoas. Deputados, senadores e outras categorias do céu, chegam por aqui, são entrevistados, contam suas vidas e até os rádios dos ouvintes choram de tanta pena e emoção. As lábias são semelhantes àquelas dos vendedores de óleo do peixe elétrico que aparecem nas feiras livres semanais. Irmãos de São José, primos de São João, parentes de Santo Antonio, estão isentos de todas as culpas, de todos os pecados, de todas as infelicidades. Você que já engoliu tantas, engula mais essa. Deixe de lado o demônio e coloque já no lugar de honra da sua casa mais dois ou três SANTOS DE ALAGOAS.


ACOCHANDO TUDO (Clerisvaldo B. Chagas. 5.4.2010) As Contínuas transformações nos climas da Terra vão cada vez mais robustecendo as palavras...

ACOCHANDO TUDO

ACOCHANDO TUDO
(Clerisvaldo B. Chagas. 5.4.2010)
As Contínuas transformações nos climas da Terra vão cada vez mais robustecendo as palavras de renomados cientistas. Ninguém pode ignorar, sob hipótese nenhuma, as mudanças registradas em todos os lugares do mundo. Mesmo o homem sem instrução, acusa no lugar em que habita algumas diferenças na pluviosidade, no aumento da temperatura, na escassez ou no exagero de enchentes que não aconteciam antes. Até mesmos os fabricantes de tecidos são contrariados pelas variedades não esperadas durante as estações do ano. Em todos os lugares do Planeta as coisas estão acontecendo. Degelo mais rápido, desaparecimento de ilhas, erupções vulcânicas surpreendentes e contínuos terremotos em diversas regiões ao mesmo tempo. Há os que dizem que isso tudo é causado pelo aquecimento global. Claro, é mais do que provável essa afirmação. Agora o duelo é mais sobre a raiz do problema. O tal aquecimento é forçado pelo homem ou é apenas um ciclo natural que se fecha provocando um novo que se abre?
Há dezenas de anos circulava reservadamente, a notícia de que o mar de Aral estava secando. Existiu e ainda existe certa mania asiática, principalmente na China e Rússia (antiga União Soviética) em esconder tragédias. Nem sabemos quais os benefícios impostos por essas atitudes mesquinhas e ridículas que trazem as tristes lembranças da “cortina de ferro”. Existem outras atitudes asiáticas na Tailândia, na Indonésia, nas Filipinas que a nós ocidentais parecem arcaicas e exóticas.
É de se estranhar mesmo assim, que só agora o secretário-geral da ONU, senhor Ban Ki-moon, tenha procurado tomar conhecimento do sumiço de um mar inteiro. O mar de Aral, localizado entre dois países independentes que faziam parte da antiga União Soviética, era considerado o 4º do mundo. Com um projeto de irrigação dos soviéticos para a lavoura do algodão, o mar encolheu e hoje representa apenas 10% do original. Também chamado lago, o Aral, entre o Cazaquistão e o Uzbequistão, no momento representa apenas um imenso deserto de areia salgada, cemitério de navio e passarela de camelos. Suas tempestades de areia prejudicam a saúde de populações desde o extremo da Ásia (Japão) ao extremo da Europa, na Escandinávia. Agora, com a pesca reduzida, também surgem outros problemas sociais. É dramática a luta pela água nessa região, gerando mal-estar entre nações. Mas o que nos chama atenção mesmo, na parte social e política, é a denúncia tardia do secretário da ONU ao sobrevoar a região do problema. Sua declaração de que aquele é o maior desastre ecológico mundial, parece uma surpresa de total desinformação. Por que só agora, senhor Ban Ki-moon?
Se a explicação dos nuances asiáticos fosse repassada para o saudoso poeta-repentista Zezinho da Divisão, teria sido até bom para o senhor Ki-moon. O “Galego” teria escutado com a cara larga mais inocente de todas, balançado a barriga avantajada e dito como tema “empaiolado”: “SÓ VAI ACOCHANDO TUDO”.
• Empaiolado = Tema costumeiro; tema de estrofes viciadas.




ZÉ 38 (Clerisvaldo B. Chagas. 2.4.2010) Do CD “Sertão Brabo I” Morava no sítio Palmas Matador de profissão O cruel Zé 38 Magrelo do...

ZÉ 38

ZÉ 38

(Clerisvaldo B. Chagas. 2.4.2010)
Do CD “Sertão Brabo I”

Morava no sítio Palmas
Matador de profissão
O cruel Zé 38
Magrelo do bigodão
Tinha os zoi da cor de fogo
Matava sem ter arrogo
Mulher, menino, ancião.

Foi assim que Zé matou
Do pobre ao remediado
Pra matar padre e juiz
Ele pedia dobrado
E antes que me esqueça
Sempre cobrou por cabeça
Aumentando o apurado.

Meu avô era roceiro
O chapéu era o capuz
Mas tinha sabedoria
Falava: deus me conduz!
Não temia o horroroso
Um devoto fervoroso
Do coração de Jesus

Meu avô um dia viu
Zé matando João Sindô
Quando passava no sítio
Chamado Bela Fulô.
Sexta-feira da Paixão
Chegou o fio do cão
No rancho do meu avô

38 foi dizendo:
─ Ô velho vim te matar
Ninguém me pagou pra isso
Mas pra você não falar
Pois não confio em vovô
E o crime de João Sindô
Não se pode boatar.

─ Zé você tá esquecido
Hoje é Sexta-feira Santa
(meu avô lhe respondeu)
Até mesmo a salamanta
Se esconde no sopé
Hoje não morde no pé
Sua ousadia me espanta.

O bandido enfarruscado
Respondeu: ─ é caduqueira
Quando o cabra fica velho
Só sabe dizer besteira
Que todo dia é comum
Eu nunca fui matar um
Pra não vê a bagaceira...

Sexta-feira que eu conheço
É bala, meu camarada,
Tu que só véve rezando
Perde tempo nas estrada,
Seu Deus é feito de pó
Vou lhe dar um tiro só
Nunca mais tu reza nada...

Eu vejo quando tu passa
Todo domingo pra igreja
Em vez de perder seu tempo
Devia estar na peleja
Vou acender um cigarro
Peça a seu Jesus de barro
Que agora venha e proteja.

Meu avô ajoelhou-se
Apontou o coração
Abriu os braços e lhe disse:
─ Pode atirar, valentão.
E do pistoleiro rouco
O revólver quebrou coco
Cinco vez na sua mão.

Na sexta vez o revólver
Daquele monstro sem luz
Jorrou o sangue divino
Com o meu avô em cruz
Juro com toda firmeza
Absoluta certeza
Que o sangue foi de Jesus.

deu um grito medonho
Com esse fato colosso
Afastou-se apavorado
Revólver cabo de osso
O cruel ia levando
O sangue fino pingando
Caindo e ficando grosso.

o bandido carrasco
Que a ninguém considera
Tinha matado setenta
Com o coração de pantera
Bem naquela sexta-feira
Logo depois da porteira
Já não sabia quem era.

enlouqueceu na sexta
Na segunda se enforcou
Porque Sexta-Feira Santa
A fera não respeitou
Hoje quem passa nas Palmas
Ouve os lamentos das almas
Dos homens que Zé matou.

FIM

NA VOLTA DO BACALHAU (Clerisvaldo B. Chagas. 1.4.2010) Pela tradição católica, vem à procura do bacalhau durante a Semana Santa, principalm...

NA VOLTA DO BACALHAU

NA VOLTA DO BACALHAU
(Clerisvaldo B. Chagas. 1.4.2010)
Pela tradição católica, vem à procura do bacalhau durante a Semana Santa, principalmente na sexta-feira, dia da morte de Jesus. É interessante como se forma uma opinião que leva a pessoa para uma prática automaticamente. Durante essa época fala-se tanto em bacalhau como se o peixe galídeo do Atlântico Norte fosse o único não proibido na refeição da sexta. Está certo que tanto o COD GADUS MORHUS (DO ATLÂNTICO NORTE) ou o COD GADUS MACROCEPHALUS (do Pacífico Norte) são deliciosos, mas nem somente vive a sexta-feira santa de bacalhau. Pode-se definir o bacalhau como peixe salgado, seco, nutritivo, saboroso, rico em sais minerais e vitaminas, quase sem colesterol e de fácil digestão. Dizem até que esse valor nutritivo, comparando em um quilo do produto, equivale a 3,2 quilos de que o peixe comum. Comer uma excelente bacalhoada está na moda, em casa, nas residências dos familiares ou mesmo em restaurantes simples ou caros no Brasil inteiro; mas nem sempre foi assim.
Nas décadas de 50 a 70, bacalhau era comida de trabalhador braçal alugado nas roças do Nordeste. Não somente o bacalhau, mas também o charque ou jabá, chamado em outras regiões de carne seca. O fazendeiro organizava grandes tarefas em batalhões (hoje mutirão) de até uma centena de pessoas, homens e mulheres, tentando apressar o trabalho. Colher algodão, limpar o mato e outros empreendimentos agrícolas, quase sempre eram realizados sob cânticos compassados como rituais solenes. A parada para o almoço (chamado boia) acontecia quase sempre sob árvore frondosa onde o bacalhau ou o charque não faltavam nos caldeirões pretos de fumaça. Entretanto, o patrão mesmo não se alimentava regularmente desses dois produtos, pois diziam ser comida de negro, “cassaco de rodagem” ou trabalhador (de roça).
Existem outros significados para a palavra bacalhau: mulher extremamente magra, comida muito salgada ou mesmo azorrague com que se castigava o escravo.
Na Santana do Ipanema da década de 50, lembramos de bacalhau à venda somente no armazém de secos e molhados do senhor Marinho Radrigues, situado no “prédio do meio da rua”, defronte à sapataria do comerciante Marinheiro, proprietário da “Casa Ideal”. O produto, juntamente com o jabá, ficava exposto no balcão aguçando o desejo do freguês, pela aparência de qualidade. Muitas unhas rasgavam as amostras que iam imediatamente às bocas ávidas no vai-e-vem de Seu Marinho. Somente no final do século XX e início do século XXI, foi que essas duas mercadorias, pelo menos no interior nordestino, começaram a fazer parte da classe média e, depois, de qualquer uma. As antigas comidas de escravos e cassacos estão presentes agora em todos os lugares. Enquanto o charque é o principal sabor da feijoada, o bacalhau é destaque somente durante a Semana Santa, quando é procurado e consumido em larga escala. Contudo, seu preço proibitivo, vai tangendo o consumidor para fora da tradição com diversas alternativas. De qualquer forma é melhor atender aos apelos das vísceras pelo produto de que viver gemendo fustigado NA VOLTA DO BACALHAU.


A BARBA DE ARÃO (Clerisvaldo B. Chagas. 31.3.2010) Quase passa despercebida no Brasil, a presença do novo presidente do Uruguai José Mujica...

A BARBA DE ARÃO

A BARBA DE ARÃO
(Clerisvaldo B. Chagas. 31.3.2010)
Quase passa despercebida no Brasil, a presença do novo presidente do Uruguai José Mujica. Trazendo inventivos planos para a economia daquele país, Mujica veio pedir apoio ao dirigente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.
Mesmo tendo pouca extensão territorial, o Uruguai é o nosso único vizinho pelo sul e merece absoluto respeito. Sendo um dos membros fundadores do MERCOSUL, possui indicadores sociais elevados e uma pequena concentração de renda entre os seus platinos habitantes. A mortalidade infantil é menor de que a média da região e a taxa de analfabetismo é quase zero. Até a década de 60, o Uruguai teve significativo desenvolvimento que diminuiu com a queda de preços dos seus produtos exportáveis. A partir dos meados do século XIX ─ com a chamada Revolução Industrial ─ o Uruguai passou a fornecer produtos agropecuários, principalmente carne, couro e trigo. O seu crescimento econômico ficou atrativo para imigrantes da Europa, notadamente espanhois e italianos, até mesmo pela facilidade da linguagem.
O nosso vizinho e parceiro do sul tem seu espaço basicamente dividido em três partes. A primeira são áreas de criação de gado bovino e ovino. O seu relevo permite que 90% do seu território sejam dedicados ao criatório. A segunda parte é ocupada pelas cidades distribuídas por todo o país com funções administrativas e prestações de serviços. E finalmente vem a área de agricultura e pecuária intensiva (cereais, hortifrutigranjeiros e leite). Esses produtos do campo vão para a indústria têxtil e as relativas aos frigoríficos. A maioria dos produtos de exportação desse país do Prata, é da agropecuária. Mesmo assim a participação maior no PIB uruguaio vem da prestação de serviços e do comércio. Sua população se concentra nas áreas urbanas, distribuídas em cidades pequenas e médias. Aliás, não existem grandes cidades no país. Se formos olhar o passado, vamos encontrar o Uruguai como província Cisplatina anexada ao Brasil e também aliado ao Império em guerras envolvendo Argentina e Paraguai
O presidente eleito pretende construir um porto de exportação para servir a todos os países da América do Sul. Isso parece o sonho central de Mujica para o seu dinâmico território. Com certeza um empreendimento desse porte seria oxigenar tanto a economia uruguaia quanto a dos países do próprio MERCOSUL. O porto seria para o Uruguai uma via de exportação do ferro e futuramente do aço. Caso os formadores do Mercado do Sul queiram de fato uma região integrada, nada melhor de que aproveitar a ideia de boa convivência. Os exemplos atuais de israelenses e palestinos não fazem às delícias da paz. Muita diferença tem da América do Sul para o Oriente Médio. “Ó quão bom e suave é que os irmãos vivam em união. É como o óleo precioso que desceu sobre a barba, A BARBA DE ARÃO (...).




AS DUAS BESTAS (Clerisvaldo B. Chagas. 30.3.2010) Na região do Cariri, o padre Cícero Romão Batista, era tudo. Com intensificação à sua pro...

AS DUAS BESTAS

AS DUAS BESTAS
(Clerisvaldo B. Chagas. 30.3.2010)
Na região do Cariri, o padre Cícero Romão Batista, era tudo. Com intensificação à sua procura a partir do milagre da hóstia, o referido padre teve que ser especialista em todas as áreas sociais para atender a demanda dos romeiros. As multidões dos povos simples vinham de todas as regiões de Nordeste pedir orientações para os seus males. Cícero ouvia as intermináveis situações complexas, ingênuas, inusitadas. Para os famintos de conforto espiritual tinha sempre uma saída aconselhando e respondendo sobre rixas de famílias, negócios, curas homeopáticas, migração e tantas outras questões que afligiam a alma da gente sertaneja. Às vezes se aborrecia ao descobrir nas suas fontes, situações golpistas do consulente. Em uma dessas milhares de consultas, uma senhora contava ao padre, o desentendimento entre ela e sua vizinha. Terminou dizendo que havia sido chamada de besta. Cícero indagou pacientemente qual havia sido a sua resposta ao insulto. A senhora respondeu que havia dito que besta era ela. Foi aí que o homem do Juazeiro teria duramente sentenciado: “Então são duas bestas!”
Se fossem anotar as brigas de judeus e seus vizinhos desde os tempos de Josué até o presente momento, um livro grosso como a Bíblia ainda seria pouco. A história contemporânea da Palestina, para falar apenas da Guerra dos Seis Dias até agora, envolvem muitos interesses, não só palestinos e israelenses. Estão em jogo muitas outras coisas que os Estados Unidos e a Inglaterra conhecem sobejamente. Falando sobre a guerra acima (1967) Israel, vitorioso, anexou ao norte, as colinas de Golan, na Síria; a oeste, a Cisjordânia, da Jordânia; ao sudoeste, a península do Sinai com a faixa de Gaza em poder do Egito; e a cidade de Jerusalém. Devolvida a península ao Egito, permanece o restante em poder de Israel. Além da específica questão Israel-Palestina, o estado judeu enfrenta problemas com grande parte da sua vizinhança. Como viver em paz em uma região cercada de inimigos? Superior militarmente na região, Israel cisma em não devolver os territórios anexados durante a Guerra dos Seis Dias. Além disso, o estado judeu diz querer a paz, mas insiste em construir casas para colonos na parte anexada. Como posso querer paz com meu vizinho invadindo seu espaço?
Por mais simpática que seja a causa israelense através do tempo, fica muito difícil para qualquer outro país, engolir a sede expansionista argumentada. E o pior de tudo nesse foco de tensão, é o nome de Deus na boca dos nativos. O Deus único e verdadeiro pulverizou-se em vários deuses do Olimpo e outros menores que a própria região insistentemente continua fabricando. Se o lugar em que Jesus nasceu, viveu, pregou e morreu é assim, imaginemos outras paragens privadas dos passos nazarenos! Bem diz o povo: “Casa de ferreiro, espeto de pau”. Israel não consegue convencer a mais ninguém com sua paz feita de balas. Pode ter decorado até a Bíblia e o Torá, mas por certo precisaria ter visitado o padre Cícero para ouvir a imortal sentença das DUAS BESTAS.



PROCURA-SE BARBEIRO (Clerisvaldo B. Chagas. 29.3.2010) Fui surpreendido mais uma vez pela Internet, com a notícia do passamento do meu barb...

PROCURA-SE BARBEIRO

PROCURA-SE BARBEIRO
(Clerisvaldo B. Chagas. 29.3.2010)
Fui surpreendido mais uma vez pela Internet, com a notícia do passamento do meu barbeiro Manoel Ferreira, dois dias depois do acontecido. Barbeiros e alfaiates são duas classes em extinção por essas bandas. Lembro que o meu primeiro barbeiro, nos tempos das calças curtas, chamava-se Nézio. Já com certa idade, Nézio trabalhava no antigo “prédio do meio da rua”. Depois fui cliente muitos anos do senhor José Barbosa que atuava à Rua Nilo Peçanha, bem próximo à Travessa Antonio Tavares. Ali, defronte à alfaiataria de José de Souza Pinto, o “Juca Alfaiate, o senhor José Barbosa começou a contar meus primeiros pelos que surgiam no queixo. Como era bem humorado, o barbeiro contava com seu futuro adicional da minha barba. Tempos depois, o senhor José mudou de ramo, passando a ser dono de bar nas imediações do mercado municipal de carne.
A boa quantidade de conceituados barbeiros em Santana do Ipanema ia rareando. No auge da categoria, houve até uma velada concorrência entre eles, coincidindo com os modernos cortes de cabelos de regiões adiantadas introduzidos em Santana. Como o senhor José Barbosa ficou de fora, o meu terceiro barbeiro passou a ser o Apolônio que também trabalhava na mesma barbearia da Rua Nilo Peçanha. Depois o barbeiro mudou para a Rua Antonio Tavares e terminou sua carreira nos salão do cine Alvorada, à Praça Cel. Manoel Rodrigues da Rocha. Foi uma vida inteira como cliente. O belo nome “Apolônio” me chamou atenção. Era diferente e lembrava o político da música cantada por Luiz Gonzaga sobre a hidrelétrica de Paulo Afonso: “Delmiro deu a ideia/Apolônio aproveitou/ O presidente Café/Agora inaugurou (...)” Quando eu estava escrevendo o meu romance “Fazenda Lajeado” (ainda inédito) precisava de um personagem marcante para o papel de capataz da fazenda. Era preciso também um nome incomum e atraente. Tomei emprestado o belo nome do meu barbeiro e Apolônio passou a ser o capataz da “Fazenda Lajeado” (os leitores irão se apaixonar por ele). Diferente, todavia, do modo de ser e da aparência do capataz, Apolônio barbeiro, morador do sítio Jaqueira, era calmo e de fala mansa. Vez em quando me contava baixinho, uma das suas aventuras e falava ser bom atirador. Frequentava anualmente o Juazeiro do padre Cícero. Senti muito quando ele faleceu. Cabra bom! Como a família possui a tradição da tesoura, passei a ser cliente do seu filho Manoel Ferreira até o dia do seu falecimento, vítima, segundo o site, de infarto fulminante.
As barbearias hoje dão lugar aos salões unissex, deixando pessoas como eu ainda constrangidas. Nem nunca entrei em um desses salões, nem barbeiro nenhum rapou a minha barba (prática pessoal de quatro ou cinco vezes semanais). Na escassez dessa profissão, ainda resta o filho de Manoel Ferreira, também exímio na tesoura; é preciso saber se vai continuar a arte do pai e do avô. Meus sentimentos à família do barbeiro radialista e fã das serestas santanenses. Com a falta desses notáveis prestadores de serviço, afixemos o cartaz: PROCURA-SE BARBEIRO.

ESQUINA DO PECADO (Clerisvaldo B. Chagas. 26.3.2010) Minha primeira experiência coletiva intelectual em discussão foi em Santana do Ipanem...

ESQUINA DO PECADO

ESQUINA DO PECADO

(Clerisvaldo B. Chagas. 26.3.2010)

Minha primeira experiência coletiva intelectual em discussão foi em Santana do Ipanema. Entre quinze e dezessete anos, travei conhecimento com o “Negão Zé Lima” que morava com a tia no “Hotel Central”. Era um prazer muito grande encontrar-me com pessoa tão inteligente e atualizada. Zé Lima, moreno claro e franzino, tinha uma capacidade incrível de criar piadas curtas e dá respostas rápidas. O local predileto das nossas conversas era a esquina do hotel, principalmente à noite e aos domingos. Conversávamos principalmente sobre História e Geopolítica. Revirávamos o mundo inteiro onde entravam a Segunda Guerra, tipos de armas, principais combates, Vietnã e muito mais além de enveredarmos pelo campo das novas tecnologias. Zé Lima andava de amigação lá na baixada do “gamba”, cuja mulher era doida por ele. Mas o Negão era apaixonadíssimo por Zilma e não parava em todas as ocasiões de elogiar “seus olhos verdes e seu rosto meigo”. Certa vez fomos a Pão de Açúcar contemplar a procissão dos navegantes e ele não parava de falar sobre Zilma, lá em cima, no cristo, de onde víamos a bela paisagem das embarcações nas águas do São Francisco.
Depois chegou o Fernando Campos e integrou-se aos encontros. Jovem de família tradicional do Bairro Monumento surgia bem penteado e bem vestido, sem nunca largar um cigarro que parecia fazer parte dele. Descobri que era também inteligente e mostrava leves ideias socialistas. Em seguida surgiu o Arlei, gago, sabido e também com pensamentos semelhantes aos de Fernando. Alguns outros rapazes também compareciam, mas eram coadjuvantes nas palestras do quarteto.
Aos domingos, as mulheres passavam para a missa das sete e das dezenove horas e não paravam de pedir licença entre a parede da casa comercial e o poste onde se amarravam os cartazes do cinema e dos jogos de futebol. Ficávamos ali, escorados na parede ou no poste. Como o filme “Esquina do Pecado” estava em voga, dei o apelido do nome do filme àquela esquina que pegou rapidamente. Não falávamos mal das mulheres de Santana como sempre acontecia no “Senadinho” pesado de adultos na porta da igreja-monumento de Nossa Senhora da Assunção. Já foi dito acima qual era o nosso tema. Entretanto, como o nome do lugar era “Esquina do Pecado”, parece que incomodava as mulheres que por ali transitavam em direção à Igreja Matriz de Senhora Santa Ana. Um dia chegou à notícia de que o novo delegado havia recebido uma queixa sobre a esquina e iria visitá-la para recolher os componentes. Verdade ou mentira, por via das dúvidas, resolvemos abdicar. A roda do intelecto nunca mais se reunião ali. Depois Zé Lima foi trabalhar em Arapiraca (onde teve a vida ceifada em acidente); eu fui estudar na capital e perdi contatos com Arlei e Fernando. Soube recentemente que Arlei trabalha em Delmiro Gouveia (AL) e, Fernando, não sei. Mas foi com grata surpresa que o redescobri através da Internet, usando as letras que saem daquela cabeça da ESQUINA DO PECADO.
• Atualmente Zilma trabalha na Escola Helena Braga.
• “Gamba” = baixo meretrício.
• Pelo menos a “Esquina do Pecado” produziu dois escritores santanenses.

RIACHO DO NAVIO (Clerisvaldo B. Chagas. 25.3.2010) No semi-árido nordestino os rios temporários são todos semelhantes, exercem as mesmas ...

RIACHO DO NAVIO

RIACHO DO NAVIO

(Clerisvaldo B. Chagas. 25.3.2010)

No semi-árido nordestino os rios temporários são todos semelhantes, exercem as mesmas serventias e variam em largura, extensão e fama. Após as enchentes periódicas, as correntes somem, restando poços rasos ou profundos, em locais arenosos ou em pedregulhos respeitáveis. Em Alagoas destacam-se as três ribeiras Ipanema, Capiá e Traipu, seguidas de outros menores como Gravatá, João Gomes, Dois Riachos, Riacho Grande, Camoxinga, Canapi, Desumano e Jacaré. A pesca incessante nos tempos de estiagem, não deixa sequer um carito (peixe pequenino e vil) para remédio.
Havia uma tradição em Santana do Ipanema quando, anualmente, um grupo de homens partia para uma pesca no riacho do Navio, zona sertaneja de Pernambuco. Participei da prática quase no final dessas alegres e decantadas excursões. Convidado que fui, parti em cima de uma camioneta lotada de mantimentos, cuja despesa era dividida por todos. A diferença geral iniciava ao entrarmos em Pernambuco cortando caminho por uma paisagem inóspita, cujo areal parecia não ter fim. A camioneta pesada e com boa velocidade, ia engolindo léguas e léguas sobre trilhos de carro de bois, ladeados por arbustos pelados e cinzentos. Tive impacto fortíssimo com uma visão real naquele mundo de deserto: um imenso açude de água verde que se perdia no horizonte como verdadeira miragem saariana. Bem ali pertinho estava o riacho do Navio, cantado nacionalmente pelo sanfoneiro Luiz Gonzaga. No local de chegada, no bojo da sequidão, um poço longo mantinha a água presa cercada de pedras lisas e de várias frondosas craibeiras que protegiam as barracas dos visitantes.
O riacho do Navio, afluente do Pajeú, nasce entre os municípios de Custódia e Betânia e percorre 132,24 km até o seu coletor. Tinha certa aparência do riacho santanense Gravatá.
Três dias de pesca longe de casa no mais engraçado lazer que eu conheci. Somente homens no acampamento em atividades diversas. Uns pescavam com tarrafas, outros caçavam, muitos jogavam baralho e outros ainda divertiam-se em farras movidas a violão, aguardente e uísque. O palavrão era destaque e corria solto na boca de predestinados. Entre a turma, um ou dois eram alvos da maior parte da brincadeira como o senhor Sebastião Gonçalo, vulgo Sebastião Labirinto. Surpreendeu-me a quantidade de mantas de carne-de-sol espalhadas por cima das pedras. Frutas à vontade. Após as horas normais das refeições, não havia regras para lanches. Quem quisesse, a qualquer hora do dia ou da noite, cortava, espetava e assava sua carne nas fogueiras permanentes. Mexia nos pães, nas frutas, na bebida, tudo de acordo com o desejo. Nenhuma restrição. Quando alguns adormeciam, tinham os punhos das redes cortados. Bagunceiros ralavam latas nas pedras e nessas horas não tinha quem dormisse. Com a garganta inflamada desde o início, não tive plenitude nas brincadeiras.
Fui e voltei com o técnico João Galego. Alguns anos após a minha ida, o movimento foi escasseando, devido o desaparecimento dos mais antigos. A tradição teve fim quando um santanense tentou derrubar a craibeira mais antiga e quase foi trucidado pelos nativos. Fui à outra pesca na volta do Moxotó com os senhores José Maria Amorim (professor), José Gomes, vulgo “Cara Veia (técnico), Sebastião “Poara” (aposentado), Juca “Alfaiate”, Osman (sargento), Manoel da “Guanabara” (comerciante), mas foi diferente e a moda não pegou. Fica assim registrada a tradição e o fim, em Santana do Ipanema, da pesca no RIACHO DO NAVIO.



UM GRITO NA HISTÓRIA (Clerisvaldo B. Chagas. 24.3.2010) Com tantas mulheres dinâmicas e destaques nacionais no que exercem, parece que pas...

UM GRITO NA HISTÓRIA

UM GRITO NA HISTÓRIA

(Clerisvaldo B. Chagas. 24.3.2010)

Com tantas mulheres dinâmicas e destaques nacionais no que exercem, parece que passou despercebida a heroína brasileira no dia da mulher, Maria Quitéria de Jesus.
Diante das constantes insistências e pressões portuguesas para a volta de D. Pedro I àquele país, aumentou consideravelmente as tensões entre brasileiros e lusos. Durante o ato da Independência, não houve participação popular às margens do riacho Ipiranga, é bem verdade; lutas imensas, entremeadas de heroísmos, entretanto, aconteceram pelo país afora em apoio ao filho de D. João VI. Portugal, sugador tri secular do sangue brasileiro, não quis entregar o Brasil independente. Houve lutas de resistência portuguesa à nova situação na Bahia, Piauí, Maranhão, Pará e na província Cisplatina. Após essas lutas nas províncias citadas, consolidou-se finalmente, em 1823, em todo território nacional, a vitória definitiva do imperador. Muitos brasileiros ainda acham que o Brasil ficou independente apenas com o célebre grito do Ipiranga. Desconhecem as lutas travadas após o grito no riacho. Nessas lutas que se seguiram após o Ipiranga, houve destaques em episódios de bravuras de pessoas que depois ficaram esquecidas na História.
Para quebrar a resistência inimiga, emissários do governo procuravam ajuda nas fazendas, principalmente voluntários. E como o pai de Quitéria nada tinha a oferecer, um desses emissários deixou à fazenda, desanimado. Maria Quitéria, após ouvir a conversa, cortou os cabelos, pulou à janela e foi pedir roupa de homem à irmã, na casa do cunhado. Assim, Maria Quitéria de Jesus cavalgou 80 km até chegar ao local chamado Cachoeira, onde se organizava o exército de libertação. Disfarçada de homem, Maria deu o nome fictício de Medeiros. Conseguiu alistar-se e já no dia seguinte estava no seu posto. Quitéria logo mudou para o Regimento dos Periquitos, tropa que usava no fardamento gola e punhos verdes. A mudança teve como causa o serviço pesado anterior. Foi no Regimento dos Periquitos que Maria Quitéria de Jesus lutou durante um ano. Mulher sertaneja de 30 anos, analfabeta, era cheia de Brasil na luta contra o colonialismo. Quitéria ainda foi promovida a cadete e teve a identidade descoberta, mesmo assim continuou engajada, lutando com um saiote por cima da calça. A sertaneja teve a honra de entrar com as tropas vencedoras em Salvador. D. Pedro convidou-a para receber medalha de ouro no Rio de Janeiro. Maria aceitou e, como era analfabeta, saiu treinando o nome na viagem para não passar vergonha diante de tanta gente importante. Ainda na Bahia, após o imperador perguntar se precisava de algo, Quitéria teria respondido que escrevesse a seu pai (de Quitéria) pedindo perdão por ter fugido de casa na noite da cavalgada.
Maria Quitéria de Jesus não foi à única mulher a se destacar na luta Brasil-Portugal, da independência. Quem procurar acha mais UM GRITO NA HISTÓRIA.





DE ONDE VEM A FOME (Clerisvaldo B. Chagas. 23.3.2010) Podemos dizer que a fome no Brasil teve início com o sistema colonial português. Hav...

DE ONDE VEM A FOME

DE ONDE VEM A FOME
(Clerisvaldo B. Chagas. 23.3.2010)

Podemos dizer que a fome no Brasil teve início com o sistema colonial português. Havia antes disso, a prática de uma agricultura chamada de subsistência praticada pelos nativos. Esse tipo de agricultura é voltado exclusivamente para as necessidades básicas alimentares da população. Mesmo vivendo da caça e da pesca, os indígenas brasileiros praticavam uma agricultura como ainda hoje acontece, à base do milho e da mandioca. A colonização portuguesa ─ com agricultura praticamente obrigatória ─ levou mão-de-obra disponível para as grandes plantações que interessavam apenas a Lisboa. Assim, o tipo de agricultura de roça deu lugar às imensas plantações de cana-de-açúcar, café, cacau, amendoim, fumo e algodão. Com essas atividades diferentes, as práticas mais antigas na colônia ficaram esquecidas pouco a pouco em relação à subsistência. Como se pode observar, o alimento básico ia sumindo, principalmente da mesa de núcleos urbanos como vilas, cidades e maiores povoados. A alimentação básica não faltava, porém, para a elite colonial dominante de alto poder aquisitivo. No campo, fora dos domínios das grandes plantações, ainda se praticava a agricultura familiar. Mesmo perto da plantation da cana-de-açúcar, em Alagoas, o domínio de Zumbi na serra da Barriga, era uma república negra de barriga cheia; graças à agricultura de origem africana do sistema roça. Nos lugares mais povoados, entretanto, a fome apertava a população pela escassez dos produtos substituídos.
No quadro da época colonial, quando se falava em luxo e riqueza no Brasil, era somente na ala exportadora das classes dominantes, como a dos senhores de engenho no Nordeste ou a dos barões do café do Sudeste. Na outra ala, miséria e fome castigando grande parcela da população. Em nosso estado, herdamos a triste realidade de Alagoas açucareira rica, mesmo assim com frase falsificada. Não Alagoas açucareira rica, mas sim, a classe dos Senhores ricos, SÓ. O Sertão continua esquecido. A renovação econômica industrial, como alternativa proposta pelo governo estadual, não consegue sair da praia. São os mesmos vícios coloniais que persistem nas Alagoas com a discriminação do chapéu de couro.
Se não fossem os programas federais para distribuição de renda, o Sertão estaria fadado aos destinos das secas anteriores. Se a origem da fome foi o sistema mercantilista colonial, a falta de desenvolvimento sertanejo forma raízes nas sucessivas e cegas administrações estaduais, principalmente. Santana do Ipanema, como a mais importante cidade do médio e alto Sertão, precisa urgentemente de um centro tecnológico semelhante à Campina Grande para fomentar o desenvolvimento sertanejo como um todo. Fora o canal do Sertão que vem aí, o resto são migalhas que esporadicamente caem das mesas dos poderosos. Estamos vivendo um novo colonialismo em que a tônica é a ignorância, má vontade, desprezo e falta de compromisso com o povo; é daí agora DE ONDE VEM A FOME.



O DRAGÃO DE SÃO JORGE (Clerisvaldo B. Chagas. 22.3.2010) Os homens desse planeta continuam com o hábito inarredável de mando. Mandar é faz...

O DRAGÃO DE SÃO JORGE

O DRAGÃO DE SÃO JORGE
(Clerisvaldo B. Chagas. 22.3.2010)

Os homens desse planeta continuam com o hábito inarredável de mando. Mandar é fazer dos outros escravos. O pior de querer mandar é mandar em tudo. E o pior de querer mandar em tudo é quando o mandante possui todos os defeitos contrários às virtudes. Podemos citar como exemplo, para não irmos longe, a área de atuação de qualquer prefeito do interior. Primeiro afasta a ideia de que é um gerente do povo e age como proprietário da prefeitura. Coloca na cabeça que é dono da vontade dos munícipes. Fora tantos e tantos absurdos que põe em prática, ainda acha pouco. Parte, então, para comprar o delegado, o juiz, os presidentes estaduais de partidos e assim por diante.
Lembro de certa vez quando apresentamos uma exposição cultural na AABB e fomos deixar um grupo de pagode no sítio Alto do Tamanduá. Ali pedi um tema: “É o dragão de São Jorge/ querendo comer o mundo”. Foi uma só animação com os casais dançando no barro batido e três mestres tirando versos com o mote solicitado. Difícil era encontrar rima para Jorge, mas eles remendavam e criavam, mérito maior do cantador.
Quando a ONU foi criada, os grandes se apoderaram da sua sombra como forma mais fácil de dominar os países do mundo. É uma espécie de associação que só quem manda é a turma do prefeito, digo, o Conselho formado pelos criadores. A ONU prega a democracia, mas ela própria pratica a ditadura que manda e desmanda com o famigerado Conselho Permanente. “Só nós e para nós”, devem pensar àqueles membros. Seria até bom que os países emergentes fundassem uma ONU paralela, juntamente com os pobres.
Quando o jornal britânico The Time diz que Lula pretende ser o secretário da ONU, mostra as virtudes do político brasileiro, mas vai logo advertindo sobre o desagrado aos Estados Unidos por o Brasil ter recebido Mohmoud Ahmadinejad em casa. Mostra também a intolerância da Inglaterra por causa da simpatia do Brasil pela Argentina no caso das Malvinas. Lula, não querendo canga no pescoço do Brasil, até falou na Jordânia sobre a tradição do Oriente em aceitar donos, isto é, incentivou um grito do Ipiranga naquela região. Daí vem à ameaça de que o presidente brasileiro seria barrado nas suas pretensões, por não rezar na cartilha dos ianques. O presidente Lula que se cuide. Não se atinge o palco peitando na multidão e sim com uma relação infindável de “dá licença, dá licença...” Como agem os prefeitos do interior do Nordeste, agem os membros do Conselho da ONU. Ou os de lá aprenderam com os daqui, ou os daqui aprenderam com os de lá. Mas assim como se construiu uma novíssima ordem mundial, pode-se construir uma nova ONU, muito embora a China e a Rússia já estejam confortavelmente em seus assentos perpétuos.
Não podemos esquecer ainda a parceria estratégica Brasil-França, ambos querendo se firmar como novas lideranças mundiais sem a tutela dos Estados Unidos. Tem muitas coisas no Globo que somente aguardando pacientemente os resultados. Algum acontecimento grande está para acontecer. Embora não acreditemos, esperamos que seja para o bem da humanidade. Mas do jeito que a coisa vai não parece distante a vinda gloriosa do DRAGÃO DE SÃO JORGE.

PENA DO SENHOR (Clerisvaldo B. Chagas. 19.3.2010) Na 5ª Série do antigo Ginásio Santana, tivemos ótimos professores. Como vários outros pro...

PENA DO SENHOR

PENA DO SENHOR
(Clerisvaldo B. Chagas. 19.3.2010)
Na 5ª Série do antigo Ginásio Santana, tivemos ótimos professores. Como vários outros profissionais, alguns também tinham os seus cacoetes. Aprendemos com as durezas do Doutor Jório Wanderley e Alberto Agra (Ciências e Geografia); com a suavidade de Antonio Dias (Português e Matemática); com a alegria do padre Cirilo (Latim); com o charme de Maria Eunice (Francês); com as narrativas de Ernande Brandão (História, Geografia e Matemática); com os trancos de Genival Copinho (Matemática); com a calma de Gezo (Português) e outros mais. Entre os cacoetes havia o do prof. Ernande que não dava dez ao aluno. Achamos que vingava trauma de adolescente: “dez é do professor”, dizia ele. E a professora de Desenho, conhecida como Dona Dea ─ esposa de um dos maiores advogados do País, Aderval Tenório ─ respondia com frase feita. Ao dizer que não estava entendendo bem a explicação, o aluno recebia da voz arrastada, meiga e irônica da professora: “Tou com tanta pena do senhor...”
No Rio de Janeiro aconteceu um levante contra a vacina em 1904, época do presidente Rodrigues Alves. A investida do governo contra a febre amarela, peste bubônica e a varíola (não devidamente esclarecidas) provocou a reação popular. A insatisfação foi às ruas e deu muito trabalho ao governo, ficando conhecida na História como “A Revolta da Vacina”.
Dividir os royalties do pré-sal com todos os estados e municípios brasileiros, nos parece justo. O petróleo é da União, pouco importando em que mar territorial se encontre. Foi muito perigoso o que o governador Sérgio Cabral conseguiu fazer. Em uma cidade violenta de influência nacional, àquele movimento poderia ter sido um estopim para uma coisa muito séria e de grande proporção; assim com a Revolta da Vacina ou a revolução fratricida de 32. Então vamos deixar somente Rio de Janeiro e Espírito Santo usufruírem dos trilhões em petróleo do subsolo brasileiro? Que privilégio é esse? A fortuna de um pai é dividida por todos os seus filhos. Como ficariam, então, os outros vinte e quatro estados e o Distrito Federal? Como mendigos, pratos estendidos e baba caindo diante do banquete dos ricos? O sertanejo nordestino analfabeto diz: “Tenha injúria, seu Cabral!” São milhões e milhões de pessoas dos vinte e quatro estados contra as lágrimas de crocodilo e boca de tubarão do senhor Sérgio Cabral. Sempre existiram negociações e Justiça para se resolver problemas de relevância sem quebrar a unidade brasileira. Não consideramos coerente o gesto do governador com o emocional das pessoas. Isso até nos dá a impressão de que é uma forma de aparecer. Somos alagoanos e santanenses, queremos a nossa fatia do pré-sal. O político do Rio que vá às favas. Ora, ora, ora!... Lembramos assim os tempos de 5ª Série, ao vermos as lágrimas bestas do governador. Parodiando Dona Dea: Seu Cabral, “tou com tanta PENA DO SENHOR...”

GREVE DAS BURRAS (Clerisvaldo B. Chagas. 18.3.2010) Algumas vezes é preciso deixar o telescópio do mundo para enxergar o local. Quando o J...

GREVE DAS BURRAS

GREVE DAS BURRAS
(Clerisvaldo B. Chagas. 18.3.2010)

Algumas vezes é preciso deixar o telescópio do mundo para enxergar o local. Quando o Jornal do Sertão denunciou os absurdos que ocorriam entre carroceiros e animais de carroça, um delegado tomou as providências. Em uma reunião com esses profissionais na delegacia, a força do aperto sanou o problema até a transferência do militar.
Atualmente o problema continua o mesmo. Deve haver muito mais de cinquenta carroceiros em Santana do Ipanema. Esses profissionais adquirem as burras, geralmente, na região de Palmeira dos Índios, por ser uma cidade ladeirosa, assim como Santana. As burras estão acostumadas com o relevo e por isso não são procurados animais de cidades planas como Cacimbinhas, São José da Tapera, Pão de Açúcar ou Arapiraca. Nesse tráfego imenso de carroças, parece não existir o menor controle de quem quer que seja. Durante a noite não usam candeeiro nem qualquer outro sinal luminoso; não existem identificação nem critério de nada. Enquanto Maceió usa cavalos esqueléticos e feridentos (nem sabemos como muitos conseguem andar) Santana usa somente a burra. (O burro não aguenta o trabalho). O condutor da carroça cobra cinco reais por uma carroçada dentro da cidade.
O problema que continua como no passado próximo são os constantes maltratos a esses animais. O carroceiro bate constantemente na burra se a carroça estiver rodando: devagar, apressada ou em alta velocidade; carroça vazia, carroça cheia, não importa. A mão do carroceiro é robô ligado à tomada que não para nunca. É de doer na alma tanta barbaridade em quem não pode se defender. E o pior. Não raros são os carroceiros que trabalham com menores. Presenciamos garotos em torno de dez a onze anos, fazendo tarefas nas carroças e muitas vezes já com um relho nos ombros, batendo desesperadamente no animal sem necessidade nenhuma. Pode ser que diante do número citado acima, existam um ou dois que não maltratem seus animais. Nós duvidamos de dois. Na cidade de Ouro Branco, há alguns anos, um delegado revoltado como nós, fez um safado descer da carroça, ficar no lugar da burra e apanhar igual a ela. Não queremos aprovar o excesso, porém, parece que tem animais de duas pernas que só aprendem assim. Não se ouve em Santana do Ipanema, uma só voz a favor das burras que não gritam, não protestam, não reivindicam a porta de delegacias, juizados, Ima, Prefeitura, Conselho Tutelar e mais. Será possível que esses atos covardes e insanos tenham que ser denunciados por um cidadão documentado com protocolo e tudo? Onde estão os direitos dos animais? Por que as autoridades não conseguem enxergar o problema? Por que tem coisas mais importantes para se preocuparem? Sem autorização prévia, ninguém pode abater uma árvore da rua que racha uma residência. Passamos três meses para conseguir tal feito diante da desorganização de setores do assunto. Mas bater loucamente nos animais, pode. Para os que fecham os olhos, é mais fácil elogiar. Sobre esse tema, quanta falta você faz Ricardão! As autoridades responsáveis pelo assunto estão aguardando a GREVE DAS BURRAS.

O DONO DO ARMAZÉM DO CD “SERTÃO BRABO I” – DEZ POEMAS ENGRAÇADOS (Clerisvaldo B. Chagas. 17.3.2010) Conheço senhor Morais Véio sovina ...

O DONO DO ARMAZÉM

O DONO DO ARMAZÉM

DO CD “SERTÃO BRABO I” – DEZ POEMAS ENGRAÇADOS
(Clerisvaldo B. Chagas. 17.3.2010)

Conheço senhor Morais
Véio sovina e mandril
Que já roubou mais de mil
Inda hoje rouba mais
Quer ser valente demais
Não dá esmola a ninguém
Fiado diz que não tem
Rouba no metro e no peso
Véve de pescoço teso
No seu bonito armazém

Ali se vende café
Arroz milho e bacalhau
Massa de fazer mingau
Feijão chupeta e rapé
Penico vela quicé
Cadeado solta-prende
Farinha grossa que rende
Assim me disse a vizinha
Que vende até camisinha
Paletó não sei se vende

Um dia logo bem cedo
Tava com fome no parque
Comprei um taco de charque
Pois fome não é brinquedo
Para misturar com bredo
Comprei cocos da Ribeira
Pedi minha conta inteira
Das carças puxei os cobre
Porque no bolso do pobre
Só tem fumo e peniqueira

Nem galinha nem perua
Nem a catuaba morna
Nem ovo nem a codorna
Podia comprar na rua
Sem dinheiro a vida é crua
Lá no barraco um degredo
Que eu só chegava com bredo
E a nega me ameaçava
Se amigar com Piaçava
Negão que fazia medo

E assim lá no barraco
A pantera arreclamava
Que eu não prestava pra nada
Queria um homem macaco
Mas eu danado de fraco
Ia perdendo o conceito
Eu disse é negócio feito
Dos terreiros de alguém
Vou nestante ao armazém
Hoje mesmo dou um jeito

era no fim do mês
Lavei o charque e os coco
Cismei de contar o troco
Na minha conta era três
Mas veio quarenta e seis
Daquele véio avarento
Vortei no mesmo momento
Porque sou um home honesto
Fui adervorver o resto
Ao dono do movimento

No armazém com coidado
Fazendo pose demais
Eu lhe disse seu Morais
Nosso troco está errado
O homem brabo danado
Me falou gritando rouco
Aqui não se erra troco
Nem com reza nem com bico
Inda caiu dois penico
No quengo do veio broco

Pra não brigar com o valente
Que vende vassoura e rodo
Guardei o dinheiro todo
Fiquei longe da serpente
Será que sou inocente
Será que pequei demais
Pra nega não xingar mais
Na farmácia de seu Agra
Comprei tudim de Viagra
Banana pra seu Morais

FIM

PROVA DE FOGO (Clerisvaldo B. Chagas. 16.3.2010) Com os Estados Unidos desgastados no processo de paz israelense, o Oriente Médio parte pa...

PROVA DE FOGO

PROVA DE FOGO

(Clerisvaldo B. Chagas. 16.3.2010)
Com os Estados Unidos desgastados no processo de paz israelense, o Oriente Médio parte para outra fase de tantas e tantas que já enfrentou. Israel sempre foi aliado dos Estados Unidos na região, até porque precisou do Tio Sam para a sua defesa territorial. Isso não quer dizer, porém, que o estado judeu não seja preparado. Ao longo da sua existência tem desenvolvido técnicas civis e militares para vencer no social e na defesa intransigente da sua existência. Israel é país rico. Há quem diga que faz parte do clube atômico, possuindo sua bomba nuclear. Mas conseguir a paz entre adversários bíblicos tradicionais não é e nunca foi tarefa das mais fáceis. Tanto isso é verdade que o próprio amigo Estados Unidos, sentiram-se humilhados com uma atitude de Israel. Enquanto fala sobre paz, o governo judeu ameaça construir casas em local ferozmente disputado. Na linguagem da juventude de hoje, “isso não existe”. Como falar de paz se minhas decisões são de guerra? Os Estados Unidos parecem irritados com mais essa incoerência do antigo aliado. O governo americano demonstra cansaço, frustração e impaciência.
O Brasil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entra no cenário outrora longínquo e inacessível. Quer ser o novo intermediário, o negociador entre israelenses e palestinos. Com pretensões de aumentar a influência brasileira no mundo e procurando apoio para reestruturar a ONU ─ Organização das Nações Unidas ─ o Brasil salta decidido no meio da fogueira. Como Lula é um negociador natural e o Brasil possui tradições pacifistas, ambos os lados da questão estão esperançosos num entendimento. Está certo que o presidente brasileiro foi bem recebido, mas isso não deixou de surgir algumas reações sensíveis às tradições. É um momento novo a que israelenses e palestinos não estão acostumados a ele, pois, antes, só conheciam de fato a voz americana. Décadas a fio com o modo de ser de um mediador, absorver a diferença agora não é fácil. Chegar a uma batalha onde só se fala em bomba, fuzil, ódio e morte, levar amor e compaixão, como disse o brasileiro, é como receber uma bomba diferente. “É chegada à hora de abrir um círculo virtuoso de negociações”, falou o visitante citando exemplos do Brasil. Nesse país milhões de judeus vivem pacificamente com milhões de árabes. A continuação da novidade acontecerá ainda em outros lugares com outros personagens fora do parlamento israelense.
Se Lula fracassar, o Brasil fracassará junto. Se conseguir os acordos desejados, Lula será forte candidato ao prêmio Nobel da paz, sem dúvida nenhuma. Então, o Brasil colocará uma coroa de ouro na cabeça. Vamos aguardar para ver como agem os envolvidos. Se com disposição de tolerância adulta ou com desencanto de criança após brinquedo novo. A cultura do Oriente não é a cultura de Brasília. E Cuba não foi nada em relação a essa desafiadora PROVA DE FOGO.


PADRES E COROINHAS (Clerisvaldo B. Chagas. 15.3.2010) Você gostaria de ser coroinha? As piadas sobre o escândalo envolvendo padres de conc...

PADRES E COROINHAS

PADRES E COROINHAS

(Clerisvaldo B. Chagas. 15.3.2010)

Você gostaria de ser coroinha? As piadas sobre o escândalo envolvendo padres de conceito no Agreste alagoano percorrem ruas e estabelecimentos de Arapiraca. Em qualquer parte aonde se chega, ouve-se os marmanjões perguntar para outros: “Fulano, você não quer ser coroinha?” E as gargalhadas acontecem em ambos os lados, seguidas de mais humorismos grosseiros. O problema da pedofilia na “Capital do Agreste” põe em xeque aquela paróquia e envergonha mais uma vez o mundo católico regional e brasileiro. Os estouros dos escândalos no Brasil, na Alemanha, ultimamente, ou nos Estados Unidos, parecem se enquadrar nas profecias sobre as estrelas que iriam cair na Terra. Não é somente a paróquia de Arapiraca que enoja a sociedade, mas inúmeras outras espalhadas por todos os lugares da terra. Quando não são usadas as crianças ─ que ingenuamente são levadas a servir à Igreja pelos pais desavisados ─ são mulheres casadas (chamadas beatas); programas com gente da rua (ver caso de Maceió do padre assassinado) ou mesmo freiras envolvidas nas imoralidades. Em Santana do Ipanema mesmo e região, correram muitos boatos à boca miúda. Existiu e existem padres tarados que são até motivos de folclore. Certa feita ouvimos uma piada a respeito de um desses garanhões. Nu, diante do espelho, um indivíduo perguntava: “Espelho meu, espelho meu! Existe no mundo um cara mais tarado do que eu? E o espelho respondia: “E o padre beltrano já morreu?
Como fica o rosto do catolicismo perante a opinião pública? Os três pastores que foram flagrados com contrabando de armas são inocentes criaturas em comparação com esses crimes hediondos contra crianças. Por que padres não vão para a cadeia? Não basta afastar o sacerdote da paróquia. Depois ele continua a prática infame em qualquer altar mais longe. A responsabilidade que tem esses ministros de Deus são as mesmas que tem os juízes que juram defender a Lei. Estamos comparando a responsabilidade dos venais, os imundos, arrogantes ou com ares de santos, vendidos como Judas. Como pode um homem chegar a uma das profissões mais bonitas, último bastião da esperança do pobre que procura justiça, e se corromper. É isso que ensina à esposa, aos filhos, aos netos: ser ladrão descarado pior do que o assaltante comum que não tem instrução alguma. A Igreja católica, para não escandalizar ou para não diminuir o número de ministros, muitas vezes prefere calar numa continuação tácita com a banda podre. Por que os padres não são apresentados nos presídios como pedófilos? Uma indenização, um pedido escondido de desculpas, uma suspensão da Ordem e pronto! Está tudo resolvido. E os fiéis seguidores da religião que confiam, que se confessam, que comungam, que não faltam às missas aos domingos... Que indenização deveriam receber pela vergonha de pertencer aquela paróquia? Ou a cúpula radicaliza numa limpeza rigorosa e geral ou o diabo toma logo conta de tudo. E quem já não gostava de vigários, hem! É de enxugar a língua mesmo nos PADRES E COROINHAS.



DECIFRAR ENIGMAS (Clerisvaldo B. Chagas. 12.3.2010) Ainda na década da ditadura getulista, eram nomeados governadores e prefeitos (estes,...

DECIFRAR ENIGMAS

DECIFRAR ENIGMAS

(Clerisvaldo B. Chagas. 12.3.2010)

Ainda na década da ditadura getulista, eram nomeados governadores e prefeitos (estes, chamados antes de intendentes). Nessa época difícil em que chefes do Executivo entravam e saíam a toda hora, o povo observava com grande indiferença o movimento político local. Foi assim que chegou a Santana do Ipanema o senhor Pedro Gaia, nomeado prefeito. Viera de Palmeira dos Índios e iria tomar posse no dia 28 de julho de 1938. Houve ainda discursos de meia dúzia que procurava mais beber do que outra coisa. Acontece que a indiferença popular transformou-se em entusiasmo com a notícia que chegou sobre a morte de Lampião, Maria Bonita e mais nove sequazes. O que iria ser para Pedro Gaia apenas um acontecimento corriqueiro celebrado na cúpula política, ganhou dimensão nacional imediata e até internacional. Esse foi o dia em que a “Rainha do Sertão” teve seu nome nas páginas de todos os jornais do mundo. Um caso de transformação do rotineiro para a felicidade, muito embora quando uma coisa é boa para uns é ruim para outros; quer dizer, dia de horror para o cangaço em Angicos, fazenda sergipana.
A visita do presidente Lula a ilha de Fidel Castro, rodou ao contrário do dia do empresário Pedro Gaia. Aplaudido com êxito por onde passou Lula com certeza pensava no sucesso que faria em Cuba. Motivos não faltavam para essa afirmação, tanto políticos quanto econômicos. Brasil hoje é garantia para Raul Castro que procura apoio visando sair do isolamento imposto pelos Estados Unidos. O caso do dissidente Zapata, (o da greve de fome), entretanto, aguardava o presidente brasileiro como uma arapuca bem armada na coincidência da morte do prisioneiro. Água fria na fervura. Da boca do nosso governante só saiu besteira por causa do momento infeliz daquele dia. Não podia fazer feio diante de Fidel e Raul. Lula conseguiu escapar dos dois dirigentes socialistas, mas não bateu bonito perante a opinião pública internacional. Lembram-se do caso de Jesus quando lhes quiseram pegar com a pergunta sobre imposto? “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Lula falou e disse asneira. Se tivesse calado teria sido ainda pior. No sertão nordestino é comum se dizer: “Hoje pisei em rastro de corno”. Como pernambucano é bem capaz do presidente ter citado a frase aos assessores. Uma coisa boa para a ruim.
Finalmente o terceiro caso. Esse não veio do ruim para o bom e nem do bom para o ruim. As duas situações vieram juntas. Aconteceu na posse do novo presidente chileno, Sebastián Piñera. O homem teve a felicidade de ser eleito, passa por uma situação terrorista com terremotos e tsunamis e, em pleno dia da posse, novos e fortes tremores no Chile. É como o aniversariante de 29 de fevereiro. O que presume esse marco na administração futura de Sebastián? Pedro Gaia pulou para o agradável; Lula caiu da escada e Sebastián irá governar entre a ciência e a superstição. Desejamos um ótimo final de semana aos nossos leitores internautas para que não tenhamos de DECIFRAR ENIGMAS.

O ÚLTIMO VAGÃO (Clerisvaldo B. Chagas. 11.3.2010) Os derradeiros massacres acontecidos na Nigéria fazem o mundo religioso refletir nessa ...

O ÚLTIMO VAGÃO

O ÚLTIMO VAGÃO

(Clerisvaldo B. Chagas. 11.3.2010)

Os derradeiros massacres acontecidos na Nigéria fazem o mundo religioso refletir nessa quaresma. Foram 528 cristãos trucidados a facão, incluindo homens, mulheres, crianças e bebês. Esse massacre foi praticado por pastores muçulmanos em grupo de 400 a 500 pessoas, diz a Imprensa. Depois dos golpes as vítimas foram queimadas, caracterizando uma ação fria com planejamento. Nós que nos preocupamos com a violência das grandes cidades brasileiras, temos a atenção voltada para mais uma barbárie do século XXI.
A República Federal da Nigéria, estar localizada no oeste da África, banhada pelo oceano Atlântico, no denominado golfo de Guiné. Esse território acha-se dividido em 36 estados e tem como capital a cidade de Abuja. Pode-se dizer que a Nigéria é hoje uma potência regional e possui uma população de mais de 184 milhões de habitantes, a maior da África. Além disso, representa também a maior população negra do mundo. Sua economia cresce assustadoramente e é projetada para ser a 11ª do mundo no futuro de 2050. Os números indicam a Nigéria para superar a população dos Estados Unidos, pois os muçulmanos não aceitam o planejamento familiar. Quanto à religião, o país é composto por 50% de praticantes do islamismo e 40% do cristianismo. Sua língua oficial é a inglesa e a Nigéria possui mais de 250 grupos étnicos distribuídos em terras de colinas e planalto na região central e terras baixas e áridas ao norte. Se formos falar sobre sua economia, vamos apontar a base no petróleo que vem encontrando problemas de ataques em suas instalações. Mas a Nigéria também produz outros minerais como o carvão e o estanho. Na Agricultura o país aparece como produtor de amendoim, milho, sorgo, inhame, mandioca, cacau, óleo de palma e cana-de-açúcar. Conhecemos a Nigéria, em tese, pelos atletas que triunfam nas corridas de ruas destaques do Brasil. Entretanto, o país tem a terceira indústria cinematográfica do mundo, perdendo apenas para a dos Estados Unidos e a da Índia. Mas, apesar de tudo que foi dito, existe uma pobreza absoluta na maioria da sua população.
Sobre o último massacre acontecido, mesmo tendo vindo dos pastores muçulmanos a agricultores cristãos, um bispo local não atribuiu o caso a problemas religiosos; tanto é que o Papa, ao condenar o ataque, não se referiu às religiões. Mesmo assim parece provável que esses conflitos sejam religiosos e étnicos. As diversas etnias tem como importantes os Hauçás, Igbos e Iorubás. Ultimamente surgem novos grupos armados atacando instalações petrolíferas e fazendo reivindicações de direitos. Mesmo assim a Nigéria vai em frente, apesar de parecer que cada etnia tem um deus particular. É o mundo que acelera o vagão da frente e exibe tristemente O VAGÃO DE TRÁS.

CONHECENDO O SERTÃO (Clerisvaldo B. Chagas. 10.3.2010) Uma vida inteira dedicada à Geografia esbarrava em várias situações interessantes....

CONHECENDO O SERTÃO

CONHECENDO O SERTÃO

(Clerisvaldo B. Chagas. 10.3.2010)

Uma vida inteira dedicada à Geografia esbarrava em várias situações interessantes. Quando resolvíamos pesquisar em outros municípios, a preferência caía sempre em cidades banhadas por rio ou pelo mar. Atuando em inúmeras escolas de Santana do Ipanema, a opinião comparativa era sempre a mesma. As campeãs dos destinos de excursões foram seguidamente as dos acidentes geográficos citados. O lazer sempre esteve por trás das intenções da pesquisa em 99% dos casos. Pouco adiantava o argumento do professor sobre o conteúdo. Assim existiu sempre um círculo vicioso em todas as escolas de Santana em cima do tripé: Maceió, Xingó e Paulo Afonso. Depois vinha Penedo e só. Lembramos que, como rara exceção, fizemos um levantamento sócio-econômico na cidade de Ouro Branco que foi um sucesso absoluto.
Se a preferência dos alunos é pelos acidentes citados, isso quer dizer que não existe interesse nenhum do jovem conhecer cidades sertanejas sem rios perenes. Citando Santana do Ipanema como exemplo, é grande o número de santanenses que não conhece Mata Grande, Inhapi, Poço, Maravilha, Canapi, Santa Cruz do Deserto e assim por diante. É que esses municípios, para Santana, são chamados de contramão porque não ficam na linha Santana-Maceió. Assim o santanense nasce, cresce, morre e deixa de conhecer sua vizinhança. Assim é com Santana em relação à Palmeira dos Índios, contramão fora do eixo Palmeira-Maceió. Ora, se nós alagoanos, adultos e estudantes, não conhecemos municípios circunvizinhos, imaginem em relação às 102 cidades localizadas em diferentes regiões. Como amar Alagoas se conhecemos apenas oito ou dez cidades? Em se tratando especificamente do Sertão, nunca soube de projeto nenhum que levasse a nossa juventude a visitar, pesquisar e conhecer os nossos municípios sertanejos. Os prefeitos, através de seus departamentos de Educação e Cultura sempre foram omissos nesse sentido. Existe uma desunião histórica em solo sertanejo, que permite a manipulação governamental pelo desprezo à região. Mas a culpa não é só de governadores. A culpa maior é da individualidade enraizada de cada governante municipal. O Sertão nunca teve força política porque é desunido. Se a palavra não for essa, é acomodamento no cargo que isola o indivíduo. Inúmeros pontos poderiam ser citados aqui como o item do início, mas citemos apenas o caso do Hospital Regional de Santana. Se o Sertão estivesse coeso aquela unidade já estaria funcionando e servindo a quinze ou vinte municípios. Mas o que lemos por aí são as trocas de acusações de desinteresse e de individualidade. Precisamos de uma política sertaneja para estimular visitas mútuas divulgadoras da História, da Geografia, da Cultura, da gastronomia e encanto de cada uma das cidades alagoanas distantes do mar. Hum! Como tem coisas para serem ditas, pesquisadas e amadas. Se as escolas não estimulam às visitas e os prefeitos não despertam para o assunto, as nossas vizinhas serão apenas ilustres desconhecidas para nós e nós para outras co-irmãs. Hoje só os vendedores estão CONHECENDO O SERTÃO.